Quem nunca?…

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interrogação. 2Quem nunca tomou uma atitude da qual veio a se arrepender amargamente, depois?

Mais tarde, com os ânimos serenados, olhamos para trás e não sentimos nenhum orgulho do que fizemos, por mais justificável seja o tipo de impulso que nos tenha movido.

Ainda que nos policiemos 24 horas por dia, pautando-nos pelas linhas sempre recomendáveis da ética, do decoro, da prudência, da modéstia, dos princípios, às vezes, derrapamos feio e cometemos algum gesto impensado, fruto de alguma situação que nos pareceu difícil de enfrentar.

Acontece com todos nós, pelo menos uma vez na vida. E o que fazer, diante de um fato desta natureza? Pedir desculpas, em primeiro lugar. Não ter vergonha de pedir perdão, ao perceber que se foi além do que seria considerada a conduta correta.

Às vezes, nos deparamos com a aflição. Em seu grau máximo. Algo próximo do desespero. E nos desequilibramos. O solo que nos pareceu sempre tão seguro e confiável começa a tremer sob nossos pés e já não somos mais aquela fortaleza esperada.

Fraquejamos. E a queda é fatal. Contudo, passada o que seria a “vergonha” de um momento que tentamos esquecer a todo custo, resta-nos a certeza de mais um aprendizado, a bela lição da humildade, da pequenez e da nossa eterna vulnerabilidade.

E, de certo modo, agradeçamos por isso. Por sermos vulneráveis. Louvemos essa vulnerabilidade que faz de nós seres humanos sensíveis, de carne e osso, com capacidade para enxergar nossos defeitos e falhas, nossa grandeza e nossa miséria.

Devemos ser gratos por reconhecer e identificar nossa fraqueza, nossa necessidade constante de redenção, de salvação. Aí reside a luta interior de cada um, a definição determinada da vontade, da inteligência, do amor-próprio a serviço de si mesmo.

Quantas vezes procuramos pela nossa auto-estima e ela não está para conversa. Difícil. Insustentável. Olhamos à nossa volta e nos vemos sozinhos. Não se trata de uma solidão premeditada, mas de contarmos tão somente conosco mesmo, numa corrida insana à paz de espírito.

Calma. Mas se chorar faz bem, chore-se. Talvez seja verdade que “chorar libera a tensão”. E lágrimas foram feitas para serem derramadas, em alguns momentos de nossa vida. Choramos de alegria com o nascimento de uma criança; choramos de emoção, de encantamento; choramos a partida de um ente querido. Choramos no final de um filme…

Então, volto ao ponto alto deste tema. Quem nunca cometeu algo que, depois, o fez chorar? E são estas as lágrimas abençoadas e redentoras. O pranto consolador da nossa alma. O lenço bendito que nos enxuga ensopado de dor, mas também de alívio, por reconhecermos que somos capazes de nos arrepender, de admitir nossa vulnerabilidade.

Não digamos: é tarde!… Não. Nunca é tarde para um pedido de perdão. Nunca será tardio olhar nos olhos de alguém e pedir desculpas. Nunca será errado portar-se com dignidade e corrigir-se.

Ainda que o outro nos vire as costas ou não aceite o nosso pedido de desculpas, nossa consciência estará em paz.

E quando somos nós a conceder o perdão, que seja dado ampla e generosamente.

Somos sujeitos e objetos ao mesmo tempo, de toda situação, de todos os momentos, nos mais diferentes ambientes por onde circulamos. Somos agentes e somos alvos.

Daí a nossa facilidade para fraquejar. Uns mais, outros menos. Não se exija de ninguém o rigor da perfeição, da postura plástica e estudada, ou das palavras que parecem poemas.

Palavras têm de possuir essência, conteúdo; gestos têm de fazer sentido. Gente tem de ter alma. Gente erra e acerta. E uma atitude de perdão é a mais nobre de todas. Quem nunca teve um pedido de perdão a fazer? Quem nunca esteve na posição de perdoar?

Proponho esta reflexão para uma semana cheia de bons pensamentos, de boas ideias, de atitudes benfazejas que iluminem e salvem. De escuridão, o mundo está cheio. Alguns a chamam de “treva”.

Saiamos em busca deste espetáculo maior, que é a vida em si mesma e sua solicitude. Sua nascente e sua finitude. Suas originalidades e seus plágios. Tenhamos em mente a possibilidade da partida repentina e nos amemos uns aos outros, num abraço universal que, por ora, parece-nos tão inviável e impossível. Contudo, lutemos. É digno lutar.

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Marisa Bueloni é formada em Pedagogia e Orientação Educacional. É membro da Academia Piracicabana de Letras.

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1 comentário

  1. Antonio Carlos em 26/01/2013 às 16:27

    Belo texto. Fez me lembrar um amigo que ao se confessar perguntou ao padre por que apesar de confessar alguns pecados, a alma continua remoendo-os. O padre disse que Deus nos pedoa. Só espera que nos perdoemos a nós mesmos.

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