Sagração do tempo

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tempoCaro leitor, espero que tenha passado um santo e feliz Natal, conforme nos desejamos e retribuímos nas inúmeras mensagens, nos votos calorosos de boas festas, as redes sociais transbordando de imagens e de frases encantadoras.

Sim, é um tempo encantador. Mas é também uma época onde tudo parece parar a nossa volta. Alguns começam a se deprimir, mal começa o mês. Outros choram fácil. Tem gente que quer sumir, tomar um remédio e só acordar dia 2 de janeiro… Boa parte vai embora para as praias, são os afortunados que conseguem fugir do bulício, em busca da paz.

Também já fiz isso, durante anos seguidos, meu lindo começava a planejar a viagem e íamos para o litoral ali pelo dia 20 de dezembro. As malas partiam abarrotadas, houve vezes em que foi preciso lançar mão de uma caminhonete e motorista, levando comida e demais equipamentos, suficientes para um mês fora de casa, numa outra casa. Lembro que até uma geladeira extra também desceu a serra!

Era trabalhoso e exaustivo organizar tudo, mas o ritual era cumprido com imensa alegria. A viagem em si, mesmo curta, a uma cidade do nosso litoral sul, era uma festa. Meu lindo dirigia cantando, irradiava bem-estar e falava com o sol. Na chegada, depois de descarregar toda a bagagem, guardava o relógio numa gaveta, andava descalço, vestia uma bermuda velha e não tirava mais. Nós, mulheres, não conseguimos ficar assim numa praia. Nossos cuidados com pele, rosto, corpo e cabelo continuam, mesmo se prometendo algo como “este ano quero ser uma índia à beira-mar…”.

Mas este é o tempo sagrado e consagrado. Penso que bem poucas pessoas ficam imunes a esta magia do Natal e do Ano Novo. São duas datas de forte apelo afetivo, emocional. O clima natalino invade todos os cantos da cidade e acaba penetrando solene em nossa alma, em nossos sentidos, na inadiável percepção de que há algo de novo no ar.

Quando chega dezembro, uma marcha singular é engrenada. Não é a lenta, nem a acelerada. Trata-se de um andamento muito peculiar, de acordo com o que se passa dentro do coração. As semanas do Advento nos preparam, as velas acesas no início da liturgia nos aprofundam na espiritualidade cristã. Quem ama a Cristo e a Sua doutrina sabe do que estou falando. É o nascimento do Homem que mudou a história da humanidade.

E assim, a sagração deste tempo se completa. Para uns, bênçãos sobre bênçãos; para outros, são dias comuns, sem nenhuma grande alteração. Impassíveis, estão mais preocupados se vai chover ou fazer bom tempo, para executar a rotina de sempre.

Ah, Deus! Quanto já ri e quanto já chorei neste dezembro de festas, saudades, lembranças e abraços! Sobretudo porque algo profundamente belo bateu à minha porta neste Natal e me arrebatou. Tentei resistir o quanto pude. Oh, fique lá fora, por favor, não me perturbe! Mas há situações simplesmente irresistíveis.  Render-se e atender aos apelos do coração, deixar fluir o que não tem explicação. Nem juízo.

Não posso terminar este texto sem desejar ao querido leitor um ano novo pleno das graças do Céu!

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