Salvação

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Desde criança ouço falar que Jesus nos salvou. Repetem há séculos que Ele morreu para pagar nossos pecados. Mas, como se por mais que nos esforcemos continuamos pecando, pelo menos eu e mais um monte de gente?

Dizem também que o seguindo salvaremos nossas almas da condenação eterna. Também não entendo. Se Jesus veio trazer uma proposta de vida, como alguém pode ser condenado por não aceitá-la? Afinal é proposta ou imposição? Aliás, muita gente que diz ter aceitado – e se consagrado – a Jesus não mostram isso na vida. Frequentam igrejas e comungam, mas vivem em mansões fortificadas, acumulam propriedades e bens, exploram subalternos, estão nem aí com vizinhos e com as mazelas sociais.

Nos meios políticos, então, existem milhares de cristãos; alguns até pastores. São batizados, crismados, fizeram primeira comunhão, casados na Igreja, assumem os gastos da quermesse, ajudam nas campanhas, bancam a reforma da igreja e o almoço dos pobres no Natal.

Mas, fazem nada do que um político seguidor de Jesus deve fazer. Pelo contrário, são aferrados ao poder, aumentam além da conta os próprios proventos, aliam-se ao poder e aos poderosos que bancam suas campanhas. Nem de longe arriscam o pescoço para denunciar conchavos políticos, aditamentos escusos, superfaturamentos e menos ainda a improbidade do poder público, principal responsável pela falta de casas populares, escolas, segurança, saúde, transporte público, lazer para todos, equilíbrio ambiental e justiça social. Vendo essa gente pergunto do que foram salvas?

Até onde entendo, Jesus morreu por ter sido coerente com sua proposta de vida. Isso aconteceu com muita gente, e acontece ainda hoje. Ele disse que o mal do mundo vem de dentro das pessoas e que a solução de todos os nossos problemas está na fraternidade, no respeito mútuo, no amor enfim. Evidente que esse seu discurso abalou a estrutura sócio-político-econômica do seu tempo. Até porque Religião, Estado e Economia formavam um só poder sustentado por braçais, escravos, empobrecidos de dinheiro, de cultura, de saúde, de conhecimento, de pertença e dignidade. Mostrar a essa gente seu valor era como detonar uma revolução. E Jesus não se omitiu. Enfrentou os poderosos e até os chamou de víboras, raposas e túmulos cheios de podridão.

Esperar o quê um carpinteiro vindo de lugarejo desprezível e de má fama senão a pena capital, na ocasião, a cruz? Ele até anteviu tal fim, mas não voltaria atrás se fosse o preço, não porque quisesse, mas porque estava totalmente comprometido. Foi fiel ao projeto libertador do Pai, que era também o seu. Como qualquer mortal entrou em pânico, mas se entregou livremente porque era senhor de si e dono de seu destino. Essa prova de fidelidade atraiu o mundo. Milhares dentre as melhores pessoas que a Humanidade gerou foram seduzidos por sua ousadia. Ou Paulo de Tarso, Sebastião, Agostinho, Francisco, Victor Hugo, Tolstoi, Luther King, Tereza, Antonio Conselheiro, Chico Mendes, Romero, Karol Wojtyla, Paulo e Zilda Arns mais uma multidão de mulheres e homens extraordinários se equivocaram?

Mais um Natal. Novamente Jesus veio para nos salvar, dizem. Até quando pode ser que nos pergunte. A partir da Encarnação, manifesta no Natal, Jesus mostrou o valor inestimável de cada pessoa. Ninguém mais pode ser oprimido, explorado, passar necessidade e ser colocado de lado. Ninguém pode impedir que cada cidadão se realize plenamente, já que não veio ao mundo para ser escravo. E ninguém tem o direito de abrir mão da própria dignidade, enterrar seus talentos e fazer de sua vida um fracasso.

Deus fez a sua parte; salvação é a nossa. Que estamos fazendo de nossas vidas? Quando, afinal vamos nos tornar verdadeiramente livres das amarras que nos tiram a alegria de viver, nossa e dos outros?  Que tal a partir deste Natal?

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