TRAVE NO OLHO

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Foto: Veja.abril

A Igreja Católica virou top com a renúncia de Bento 16 e a eleição de Francisco. Desde quem a segue quanto quem está nem aí com sua doutrina, se sentiram à vontade para dar seu pitaco. Não que estejam interessados na mensagem dela e dos papas. João Paulo II deu volta ao mundo durante seu pontificado. Vi pela tevê a conveniente pieguice de ditadores e governantes assim como gente chorando e se estrebuchando. E o que ficou? Aumentaram os seguidores de Jesus e mesmo a Igreja melhorou? Além de líder importante, a figura do papa é rodeada de mistérios, por isso a curiosidade, a especulação os interesses midiáticos e até turísticos.

E para que serve isso tudo se um papa nada tem a revelar além do que já tenha sido? Quem sabe faz a hora, não espera acontecer, diz a música. Embora necessárias, mas não essenciais, o seguimento de Jesus independe de hierarquias e autoridades; e nem depende de reformas na Igreja ou do pomposo rito de eleição papal. Indispensável é a comunidade, pois “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles” (Mt18, 19). Simples, e bem a gosto de Deus. O pontífice só irá somar se sua vida apontar para o CAMINHO, do qual fala a comunidade de Lucas no seu Evangelho. Caso contrário, são dispensáveis mártires de estruturas seculares.

Na verdade, as estruturas da Igreja mais atrapalham que facilitam o seguimento de Jesus, afinal até os acessos à Palavra e à Eucaristia pressupõe o padre – não o padre que a necessidade pede, mas o que a Igreja quer. Nesse sentido, tudo o que se deseja fazer na comunidade não vira sem vênia do pároco e autorização do bispo. “Não é justo que [os leigos] se sintam tratados como quem pouco conta na Igreja, apesar do entusiasmo que sentem em trabalhar nela, segundo a sua vocação própria e o grande sacrifício que, às vezes, lhes requer essa dedicação.” (Bento XVI). Se leigos ocupam algum posto na hierarquia é por escassez de sacerdotes, não para frutificar os talentos que de Deus recebeu. Contudo, “na perspectiva do Antigo Testamento, Jesus é antes leigo que sacerdote…” (Marilza L.Schuina – Vice Presidente do CNLB).

Na prática, não somos “raça eleita, sacerdócio régio, nação santa, povo adquirido por Deus, para proclamar as obras maravilhosas daquele que [nos] chamou das trevas para sua luz admirável…”, como disse Pedro, nosso primeiro papa na sua primeira encíclica (1Pd 2, 9 – 10), ratificado no Concílio Vaticano II. Somos rebanho de ovelhas tangido por profissionais; povo sem instrução, sem vez e sem voz. Grosso modo, sustentamos o templo, pagamos o salário do padre e recebemos seus serviços que não transformam a vida de ninguém e muito menos atraem os que procuram salvação.

“Devo reprovar-te, contudo, por teres abandonado teu primeiro amor”. (AP 2, 4). Pois bem, quando mais longe do Evangelho mais contraditória, onerosa e uniforme se torna a Igreja; além de refúgio para gente mal resolvida. A renúncia do papa é um alerta à conversão dela inteira, pois o fardo, que deveria ser leve, ficou pesado, talvez porque as preocupações com as coisas do século “sufocaram a Palavra”.

“Tira primeiro a trave do seu olho” (Mt 7,5). É isso que precisa fazer. Em vez de querer mudar o mundo, mudar a si mesma; o mais virá de acréscimo. Em vez de se envolver em questões sobre as quais não tem resposta e segregar mais ainda quem a sociedade só sabe condenar, acolher, pois era assim que Jesus agia. “Nem eu te condeno…” (Jo 8,11).

Então sim, a Igreja será o que deve ser e que a humanidade tanto busca: “cidade que não precisa do sol ou da lua, pois a glória de Deus a iluminará, e sua lâmpada será o Cordeiro, que enxugará toda lágrima e saciará toda sede” como diz o Apocalipse.

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