Francisco, o Papa “marxista”

Papa FranciscoQuando o cardeal argentino apareceu na sacada do Vaticano, anunciado como o novo Papa da Igreja Católica, houve um misto de surpresa, perplexidade e interesse. A figura dele – com sorriso aberto e generoso, gestos informais e um olhar límpido, além da simplicidade notória – causou simpatia imediata, num mar de desânimo e de desconfianças do mundo católico. E, então, o nome, que indicava toda uma filosofia, uma espiritualidade determinante de seu episcopado, uma linha de conduta: Francisco, lembrando o “poverello” de Assis que, à sua época, conseguiu devolver a Igreja Católica às suas verdadeiras origens.

O Papa Francisco – “Franciscus”, como ele se identifica – conquistou o mundo de maneira por assim dizer espantosa, despertando confiança imediata, inspirando esperança. De uma maneira totalmente diferente, com uma simplicidade inédita e cativante. Suas primeiras decisões pessoais confirmaram-lhe as  convicções e propósitos de, em vez de majestático e distante, testemunhar a humildade, a frugalidade, a sua face humana de jesuíta com sensibilidade franciscana.

Tudo, nestes meses, aconteceu com rapidez e simplicidade surpreendentes. E lá estava ele, Franciscus, conseguindo dar descanso à imagem se popstar do reverenciado Papa João Paulo II. O carisma mostrou-se mais abrangente e sedutor, ainda que em outro estilo. Fosse político, dir-se-ia ser um Papa populista. Sendo religioso, descobriu-se ser um Papa do Povo, que tem “cheiro das ovelhas”, como ele próprio diz.

O inevitável e previsível aconteceu: o Papa Francisco – pelos donos do mundo, pelos setores mais insensíveis, pelo neoliberalismo alarmado, pela economia desumana – já é considerado o Papa subversivo, o Papa marxista. E a razão é única: ele assumiu a defesa dos pobres e miseráveis do mundo inteiro, tornou-se como que patrono deles e não tem receio de mostrar, de apontar e de denunciar as mazelas e injustiças sociais em todos os níveis.

Quem ler a sua exortação apostólica “A Alegria do Evangelho” (“Evangelii Gaudium” ficará literalmente seduzido e convencido por um documento escrito com simplicidade singular, mas com uma profundidade analítica devastadora. E com uma coragem de quem nada mais tem a dizer do que a própria Verdade. Entusiasma-se com as grandes conquistas da ciência e da tecnologia, vendo-as como instrumentos de união e de reunião, se bem aproveitadas.  E, com isso, ele verbera contra seus companheiros de clero, contra bispos, cardeais, clérigos e contra a própria estrutura eclesial – de quem não tem receio de chamar de acomodados e ausentes de sua verdadeira missão. É dele, na exortação, a frase dilacerante: “Deus nos livre de uma Igreja mundana sob vestes espirituais ou pastorais.”

Lendo o livreto – na verdade, imantado por ele – percebi que Francisco apresenta, sim, todos os motivos para ser tido e reconhecido como o Papa Revolucionário. Pois é uma revolução que ele propõe, revolução firme mas amorosa, passando o espanador em leis rígidas que, erroneamente, tem orientado a evangelização, no retorno à mensagem original de Cristo: o amor. Nisso, a respeito da própria Igreja, ele diz que, no “pragmatismo cinzento da vida cotidiana da Igreja (…), desenvolve-se a psicologia do túmulo, que pouco a pouca, transforma os cristãos em múmias de museu.”

Há, pois, motivos para os capitães da globalizada economia do mercado temerem a voz de “Franciscus”. Eles – que aplaudiram João Paulo II por ter desmoronado o comunismo da União Soviética – já se vêem diante de um Papa disposto a conclamar por uma nova ordem econômica mundial. Voltada, urgentemente, aos pobres, miseráveis e excluídos que vagam pelo mundo.

Não é, em meu entender, documento apenas para católicos. Pelo contrário, sua dimensão é universal, como que uma nova bandeira, um referencial renovado e – por que não? – a retomada do verdadeiro caminho da humanidade, bombarbeada pelas mais cruéis armas materialistas. Em resumo, o Papa Francisco anuncia um verdadeiro “humanismo cristão”, mais arejado, alegre, sem correntes aprisionantes que, por tanto tempo, levaram tristeza ao mundo ocidental. É documento para ser lido, estudado e refletido em comunidade, nas famílias, nas escolas, entre amigos. Pois ficou claro: começou uma nova jornada.

Com um anúncio milenar em linguagem renovad, Franciscus é o pastor providencial para o desgarrado rebanho de nossos tempos caóticos. Bom dia.

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