Uma discussão exemplar

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A tarde não cumpriu a promessa de ser agradável, rotineira e normal, um daqueles nossos bons debates vespertinos semanais que eu e Leon Del Neri costumávamos travar. Subitamente, sem que pudesse atinar de imediato com o porquê disso, adentramos uma desagradável senão amarga discussão. O motivo inicial foram ideias divergentes sobre os cílios e as substâncias específicas produzidas pelo miracídio de um tremátode por nós descoberto e até então desconhecido da ciência. Nossas experiências e observações decidida e paradoxalmente não coincidiam. Até aí tudo bem para cientistas, seres racionais. Mas nem a razão nem a real amizade nos impediu de, em nome da ciência ou da vaidade, altercarmos agressivamente sem pejo.

O auge do desentendimento deu-se numa das piores, mais estranhas e movimentadas esquinas de Durban, quando nos dirigíamos ao café vizinho ao qual, porém, nunca chegamos. Paramos nessa famigerada e poluída esquina da cidade. Leon gesticulava e me fazia acusações graves do ponto de vista intelectual, sempre fumando desbragadamente e deixando um cigarro ao meio para, com furor, acender outro. Falava alto, atirando com raiva os objetos incandescentes meio fumados mas certamente ainda acesos ao redor e ao acaso, para lá e acolá, para o norte e para o sul, para cima e para baixo, até que um deles acertou a roupa de uma mulher branca, alta e esquálida que só assim ganhou vida agitando as mãos num inusitado e harmônico movimento de dança para evitar que sua blusa se queimasse mais. Se a mulher não fez escândalo, se não afrontou Leon e, ao contrário, saiu apressadamente de esguelha, com certeza isso se deveu ao temor àquele local poeirento, ruidoso e arriscado e ao aspecto descontrolado do meu amigo. Mas… e eu? Também não devia fazer boa figura. Com gizes de cera tirados dos bolsos desenhava freneticamente na calçada e nos muros vizinhos cadeias de DNAs: citosina, guanina, tirosina devidamente encadeadas em milhares de combinações torcidas possíveis, além de partes celulares: ribossomas, vacúolos e o núcleo e nucléolo (esses dois últimos, modéstia à parte, muito bem esboçados), sem me esquecer de cada um das centenas de cílios, projetados para fora.

Um bêbado no meio fio escarrou sobre uma membrana celular do meu miracídio vermelho e azul, tão talentosamente desenhado e isso, de chofre, me fez voltar à realidade. Controlei-me e respirei, tentando organizar as ideias.

A verdade não agradável de admitir é que Leon, imagino, nunca venceu seu forte preconceito racial, e este seu colega asiático (eu) sempre lhe pareceu mesmo alguém bem inferior, não real merecedor da academia, das laudas, das páginas e dos autos.

Reconheço o talento de del Neri em vários campos avançados, inclusive nos estudos de clones, porém quanto às particularidades do miracídio tenho certeza. São 305 cílios, não 301! E ele produz enxofre saponáceo, não coloidal! Quem não seria capaz de morrer por isso? Quanto mais de abalar uma amizade…

Leon invocou, inclusive, o depoimento de um colega para corroborar a diferença desses quatro cílios, mas rejeito-a, considerando-a irrelevante para o debate, pois o nobilíssimo pesquisador é especialista em áreas cibernéticas e nada entende nem sabe dos nossos miracídio. Mas foi assim que me vi, depois sozinho, à porta de um bar estreito, onde dois cães enormes barravam a entrada das pessoas. Pulei por sobre os mesmos.

Numa hora dessas, de crise, o que um cientista prestes a ter fama internacional poderia desejar? Enumero:

a-) ser um reles escrivinhador de aldeia que transmuta quase tudo

b-) ser um mágico ambulante que tudo falseia e ilude

c-) ou um oleiro com um torno capaz de moldar centenas de peças diferentes, pois qualquer desses sempre acaba por resolver assuntos cruciais.

Em não sendo nada disso, resta-me provisoriamente a cerveja e os cães à porta, um dos quais meio que boceja, a poeira incontrolável das indóceis avenidas de Durban além de uma silhueta obesa do barman, atrás de uma porta de vidro, que acaba de quebrar um copo.

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