Uma viagem ao Uruguai

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Reconheço o mau começo do texto para um país tão interessante e para uma viagem boa. Porque falarmos em grana? Por outro lado gostaria sim que me explicassem também que porcaria acontece com a economia uruguaia. Os preços lá são muito altos. Tudo caro demais; e vejam que nossa moeda vale por volta de oito vezes o peso local. Como aquele povo vive? É de pasmar. Mas vive e é de uma simpatia única. Diz a lenda que “los malos” são diretamente encaminhados para a profissão de motoristas de táxi… Piada.

É gente espontânea, acolhedora aquela, aberta, num frio de arrepiar qualquer chimarrão gaúcho. Descobri também gostar muito da língua espanhola. Imagino que seja porque é a latina mais próxima do português. Curto mismo hablar.

Foram dois dias de ventos de 70 km horários e chuva fina, é verdade. Saíamos de capas plásticas e quase éramos carregados. Morrer de rir! Mas muita pena dos cães que levavam a passear sem agasalho nenhum com aquelas temperaturas…

Nas ruas sujas, em Montevideo, no calçadão da cidade velha e além, frente a tantas fachadas e prédios difíceis de narrar de tão belos quanto muitas vezes mal conservados, havia restos de seres destruídos. Eram dezenas de frágeis e feios guarda chuvas, inutilizados pelo vendaval; as varetas em desordem: esqueletos e patas quebradas de aliens aracnóideos, mortos e abandonados nas vias. Defronte ao quarto do hotel, no telhado descoberto de certa casa mui antiga, o vizinho, um moço encapuzado, lutava para salvar as roupas do varal que rebeldemente queriam alçar vôos de pipas. Elaborava um balé frenético, com as peças coloridas contra o céu enfezado.

Negam-no, mas sei que Emile Brönte percorreu algum dos museus daquela capital quando se inspirou para seu livro mor. Porque os ventos, lá fora, uivavam qual matilha, enquanto olhávamos as belezas. Meninos, ouvi!

Para além dos museus modernos, organizados e lustrosos e de vários prédios especiais muito bem mantidos nos quais adentramos, alcançamos o mercado de chão lavado, que começava a despertar para o almoço com muitos nichos de fogo. Carnes não as provo sequer, mas a cálida pirotecnia só podia encantar.

Dois dias depois saiu o sol. O estuário do Prata deixou de engolir nuvens e de vomitar ameaças escuras, tornou-se a mais plácida das baías, com praias verdes e azuis ao redor, onde barcos dormitavam. Saímos da cidade. Campos de sol e festa, casas pequenas e grandes, assobradadas ou baixas, com arquiteturas diferenciadas, de bom gosto, quase sem portões ou cercas. Alagados, grandes lagoas, campos e aves. Áreas verdes abundantes que o ônibus deixava para trás, percorrendo estradas serenas que não metiam nenhum medo, e note-se que estávamos ainda nas vizinhanças da capital do país.

Tudo me pareceu muito arranjado, agradável de ver. Nessas horas, em meio ao prazer ante o que percebia, nasciam-me certa tristeza, frustração, temor e um pouco de vergonha. Disfarçava tais sentimentos quebrando entre os dedos biscoitos de água e sal, sem comer nenhum sequer, e mergulhava os olhos na paisagem. A seguir mergulhava-os também na parte do cérebro onde se guardam as histórias e, talvez, os sonhos.

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