A cara da Presidente

Cara da PresidenteUm dos acontecimentos mais absurdos que me aconteceram na vida – e que me pesou feito cruz ao longo dos anos – foi quando, aos 21 anos de idade, o saudoso e brilhante jornalista Luiz Thomazi, piracicabano da gema e figura de proa do jornalismo paulistano, me chamou para uma reunião com um seleto grupo de empresários. Eram políticos, comendadores, industriais. Eles haviam criado a “Folha de Piracicaba” e, por razões de parentesco com alguns deles, fui ajudar a instalação do novo jornal. Na verdade, “fui emprestado”, pois já estava no “Diário de Piracicaba” e Sebastião Ferraz, o diretor, me autorizara “ir por algum tempo e voltar.” Fui e fiquei.

Aconteceu, naquela manhã de 1961, que os donos da “Folha” estavam em reunião para resolver problemas. E um deles, o mais urgente: eles haviam dispensado o diretor do jornal, o prof. Waldemar Arruda. Luiz Thomazi era conselheiro e consultor jornalístico dos empresários. E eu, simples redator que auxiliava a bagunça instalada, jornal montado de maneira equivocada, com instalações e equipamentos precários. Mal cheguei à reunião, tímido diante de homens tão poderosos, convidaram-me a sentar e todos me olhavam como se eu fosse um animalzinho raro. O Luiz Thomazi então falou, sem me consultar, sem pedir-me opinião: “A partir de hoje, você é o novo diretor do jornal.” Tremi, sei que minhas pernas bambearam. E o olhar de Luciano Guidotti – o filho dele, Wilson, seria meu concunhado – foi de desafio. Thomazi parecia, também, zombeteiro: “Tem que decidir já: aceita ou não?” Com raiva, como um galinho de briga atingido nos brios, rosnei: “Aceito.”

Lembro-me disso como uma irresponsabilidade tanto dos empresários e de Thomazi que me indicaram para o cargo, quanto minha, ao aceitá-lo. Ora, o que sabe um quase adolescente de 21 anos para dirigir um veículo de comunicações, dando-lhe linha programática, ideológica? Qual a percepção de mundo, de vida, dos bastidores onde ocorrem as grandes decisões, dos interesses envolvidos até mesmo para se consertar o buraco de uma esquina? No entanto, eu vinha de uma escola jornalística romântica, idealística. Ser jornalista era servir, sacerdócio. De outro lado, eu ainda tinha vínculos com o Partido Comunista Brasileiro, de cuja juventude universitária fiz parte, levado por João Chiarini. Era profundamente curioso e desafiador: um jovem comunista dirigindo um jornal de capitalistas, de empresários e comendadores. Foi o que aconteceu. E, quando ocorreu o golpe de 1964, eu estava com minhas convicções radicais, ranços, certezas absolutas.

Penso nessas coisas, muitas vezes aborrecido com tantos equívocos e percalços, especialmente agora ao ver a desordem moral e ética que parece ter-se instalado, como uma doença, em parte da imprensa brasileira. O ranço, os ódios, o radicalismo, a fúria, a cegueira proposital ou adquirida tornaram-se uma verdadeira cortina de ferro separando alguns poderosos veículos do povo verdadeiro que, do outro lado, vive um outro cotidiano. Parece que essa imprensa está disputando o terceiro turno das eleições, inconformada com a derrota, com a falência de um projeto de privilégios e de conservantismo. Se, antes, tentaram desqualificar a presidente eleita Dilma Roussef, buscam, agora, minar-lhe a autoridade, como se ela fosse um simples instrumento usado pelo presidente Lula. Não dão, a Dilma Roussef, sequer o direito de tomar posse e de iniciar o seu governo.

Ora, essa gente – que lembra a minha juventude radical, cega de paixões políticas – quer saber qual “a cara” do novo governo. Trata-se, no mínimo, de uma estupidez que, no entanto, oculta um maquiavelismo subdesenvolvido e mágoas não cicatrizadas. Essa gente quer que o ministério tenha “a cara de Dilma”. Como seria essa cara, se a presidente Dilma faz parte de todo um processo de continuidade renovada de um governo que deu certo? É óbvio que a presidente Dilma está sendo apoiada por aqueles que a ajudaram a se eleger e, em especial, pelo presidente Lula. Qual o mal nisso? E não foi exatamente por isso, confiando nisso, que o povo a escolheu? Ou os farsantes queriam que “a cara de Dilma” fosse a dos tucanos paulistas ou cearenses?

Deve ter gente, nesse segmento empobrecido da imprensa brasileira, que está com os ímpetos rançosos de um garoto de 21 anos. Eu sei o que é isso. E, pelas besteiras que cometi, temo pelas besteiras que eles estão cometendo. Esse Brasil novo merece inteligências mais arejadas. E limpas. E bom dia.

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