1.500 vezes Bom Dia

Bom DiaNada – a não ser a própria vida – me parece tão misterioso quanto o tempo. Desisti de entendê-lo. Nem mesmo a breve definição de Platão me diz alguma coisa, a não ser seu sentido poético: “imagem móvel da eternidade.” E, de alguma forma que não compreendo, passei a querer entender o tempo como algo imóvel,parado, como que uma ficção. E, então, movendo-se com o Planeta, somos nós a nos movermos diante dele. Logo, o tempo não passaria e, sim, nós é que passamos por ele.

No entanto, há uma reflexão de Santo Agostinho em “Confissões” – e reconheço minha estupefação pela força da inteligência e da reflexão agostinianas – em que ele fala mais ou menos o tempo identificar-se com a própria vida da alma que se estende para o passado ou para o futuro. Ele se perguntava de que maneira diminui ou consumava-se o futuro que ainda não existe. E de que modo cresce o passado que já não é mais. E concluía que, na alma, há as três dimensões: passado, presente e futuro. É uma beleza de complicação. Mas, também, teoria.

Penso nisso – e não mais me meto em filosofações – ao ver, no sistema de postagem de administração de A Província na internet, ser, esta, a 1.500ª croniqueta que aqui escrevo, desde quando criamos um pequenino site que chegou ao que somos agora há cerca de dois anos e meio. Confesso meu próprio espanto, especialmente pelo fato de ter adquirido um mecanismo mental que me ajuda muito e, ao mesmo tempo, me atrapalha: não releio o que já escrevi, tento zerar o que já foi publicado. Dar-me conta, porém, de já terem sido 1.500 crônicas eletrônicas, além de outras atividades que tenho por mim, deixa-me, também, como que um susto, com reflexões que me incomodam. Por quê, para quê, a troco de quê?

A resposta que me vem é a mesma de 1964, no mês de agosto, quando, pela primeira vez, escrevi a crônica a que dei o título de Bom dia, leitor, na “Folha de Piracicaba”. Repito-me, pois já contei isso. Mas eu me sentia esmagado, sabor de derrota na própria vida. O golpe militar me roubara todas as ilusões, nos meus 24 anos de idade, na luta jornalística que me levava a enfrentar mil dificuldades. Pois eu não era mais apenas o diretor do jornal precário e pobre, mas dono dele. Os acionistas, um a um, foram saindo. E, quando o golpe militar aconteceu, a crise se tornou realidade ainda mais amarga. Lá estava eu praticamente sozinho, já na oposição aos militares e com a notícia de que minha também jovem mulher engravidara. Esperávamos a primeira filha. E com a ameaça de não conseguir a ver qualquer futuro menos sombrio.

Esmagado, moído por notícias ruins, por um verdadeiro lamaçal de ódios e de rancores, senti que a alma e o espírito estavam infectando-se daquele poço de misérias. Então, num início de madrugada, senti a necessidade imperiosa, vital, de ter um espaçozinho de jornal onde pudesse desabafar, conversar comigo mesmo, ter meu muro de lamentações, um confessionário pessoal, algo intimista que me tirasse de todo aquele lodo. Comecei a escrever uma nova coluna, o Bom Dia. E, em todo final de noite, alinhava emoções pessoais, sentimentos, expectativas, alegrias, amarguras. Foi em 1964. E, portanto, já se passaram 46 anos ou fui eu que passei por eles.Posso dizer, hoje – assustado ao me dar conta de 1.500 bons dias cá em A Província – que foi esta pequena e despretensiosa coluna que me permitiu manter o espírito livre e a alma saudável. Confessei-me a cada dia, purguei-me, desintoxiquei-me. E sobrevivi. Foi e tem sido assim. Quantas outras e tantas mil vezes? Quantos milhões de palavras? Sei lá. Importa, apenas, ter sobrevivido. E bom dia.

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