A volta de Bernanos

BernanosMal concluíra a escrita refletindo sobre o retorno de aulas de Música na escola, eis que deparo com a informação de que serão reeditadas as obras de Bernanos no Brasil. Vai-se-me, pois, confirmando, de maneira auspiciosa, a onda transformadora que paira no ar, essa do “eterno retorno”, que nada tem de passadismo, mas de renovação. Desde a Antiguidade, a ideia do “eterno retorno” acompanha o homem: ciclos através dos quais o universo volta a seguir o mesmo curso de acontecimentos. São reflexões admiráveis que nos chegam especialmente dos estóicos e que, com Nietszche, adquirem expressões ainda atuais. E são simples: se as coisas que acontecem são as corretas, inevitavelmente elas voltarão a acontecer.

O que foram as espetaculares apresentações de Paul McCartney em São Paulo senão o retorno do que se não perdeu, do bom que permaneceu vivo, que permanecerá? Pesquisadores e cientistas sociais começam a ver sinais claros de buscas e anseios que reabilitam costumes, hábitos, usos e tradições não tão antigas assim. Moças voltam a desejar casamentos com véu e grinalda; jovens casais optam por uniões mais estáveis, fiéis, seguras; a eterna idéia de família, ainda que com novas variantes, volta com toda força. Compositores revivem romantismos, amigos reagrupam-se em encontros selecionados, buscam-se frugalidades diante do cansaço e do susto dos excessos, dos acintes do exibicionismo. Enquanto isso, porém, o mundo do espetáculo continua vivo, mantido e promovido por veículos de comunicação com intuitos apenas comerciais.

Retorno a Bernanos, ao grande George Bernanos, que apaixonou também a minha geração nos 1960. Não havia necessidade de ser católico para deslumbrar-se diante da lucidez e das convicções de Bernanos que, com Jacques Maritain e outros, proclamava uma apaixonante face humana do Cristianismo. Foi tão esplêndida essa face e tão sedutora a visão de um rejuvenescido mundo cristão, que socialistas e comunistas – orgulhosos de se proclamarem ateus – faziam concessões ao que passou a se chamar “compromisso histórico”. Foi a utopia de comunistas e a Igreja encontrarem-se no meio do caminho. Chegou a haver um esboço de socialismo cristão, mas nada foi para a frente já que se torna impossível colocar, em pé de igualdade, o sagrado e o profano, o divino e o humano. Encontrar chispas do divino no humano é, até mesmo, ato de inteligência. Mas tentar humanizar o divino, isso é tolice.

Neste meu tempo de contar histórias, de revisões, de recuperação de memórias perdidas, fico perguntando-me, cada vez com ansiedade maior, como aconteceu a estupidez de termos perdido tesouros inavaliáveis, a substituição de jóias preciosas por pedregulhos do caminho. Destruímos edifícios inteiros, montando barracas nos destroços, apenas barracas. A inteligência mundial diminuiu, e a brasileira foi levada quase toda de roldão. Onde estão – como já se pergunta por todos os cantos – os então chamados “grandes homens”? Como foi possível um Berlusconi no lugar de um De Gaspari; um Sarkozy, onde esteve De Gaulle; um Bush, substituindo Roosevelt?

Há mil respostas e, portanto, nenhuma conclusiva. Mas penso no privilégio intenso e imenso de minha juventude quando conheci Alceu Amoroso Lima, Gustavo Corção, Helder Câmara, Sobral Pinto, a sombra frondosa de Bernanos pairando sobre todos eles. As discussões em torno de Teillard de Chardin, de Maritain, de Lebret, a influência cultural e intelectual dos dominicanos, a força do jornal Brasil Urgente, a liderança de frei Carlos Josaphat, a ebulição cultural, as esquerdas despertadas por e para valores cristãos – onde foi parar tudo isso? Sei lá. Sei, apenas, que a volta de Bernanos parece confirmar o fim de um ciclo, começo e recomeço de outro. Tomara. Bom dia.

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