Adeus a Samuel Pfromm Neto

Não é verdade não haver ninguém insubstituível no mundo. Cada ser humano é único. E, portanto, insubstituível como pessoa. As próprias impressões digitais de cada um o reafirmam. Entre bilhões de humanos, não se encontram impressões digitais iguais. Além disso, há pessoas especiais como seres humanos e nas atividades que exercem. Samuel Pfromm Neto é uma delas. Por isso, a sua morte – já prevista, após longa e cruel enfermidade – é uma perda irreparável, especialmente para Piracicaba, de quem ele foi, por toda a vida, um dos filhos mais apaixonados e um dos que mais nos honraram com a dignidade de sua existência.

Uma única crônica de um escrevinhador de província não bastaria para dizer da imensidão dos trabalhos deixados por Samuel como jornalista, escritor, pedagogo, psicólogo, intelectual, acadêmico. Dos serviços que ele prestou a este país. E de como ele honrou Piracicaba e os piracicabanos, com sua inteligência, cultura, dignidade, exemplo de cidadania. Infelizmente, Piracicaba – devastada por tempos irracionais de materialismo estúpido e de mercantilismo estéril – tem poucos homens e mulheres que, diante da devastação, sobraram para honrar a memória de Samuel Pfromm Neto, e prantear a sua morte. Somos, talvez, a última geração de humanistas capaz de reconhecer a importância de um cultor do Humanismo da dimensão de Samuel. Nos últimos tempos, ele foi tornado secundário até mesmo pelo jornal centenário ao qual ele dedicou parte de sua vida e que amou com tanto desvelo. Uma nova direção, jovem e sem senso histórico, não consegue avaliar o valor histórico da própria instituição de que Samuel Pfromm Neto foi uma das fortalezas principais.

Este grande homem que se foi – deixando-nos numa orfandade intelectual imensa – foi um dos meus primeiros mestres no jornalismo. Pois comecei, ainda adolescente, como seu auxiliar, revisor que ele era, no início de carreira, do antigo “Jornal de Piracicaba”. Ele, moço ainda, revelava seu talento, espalhava sua inteligência, contagiava com sua cultura. Ao lado dos também então jovens Eurípedes Malavolta e Osvaldo de Andrade, Samuel Pfromm Neto foi um dos nossos primeiros críticos cinematográficos, com o inesquecível “Luz & Sombra”.

Poucos dias antes de sua morte, conversei com dona Olga – sua dileta e amada esposa – que o acompanhou até os instantes finais. Falávamos da obra não publicada de Samuel, um dicionário da gente piracicabana que desejávamos pudesse, ele, ainda em vida, ver divulgada. Parece que acontecerá, agora, pela FEALQ. Será uma homenagem imorredoura. E se Samuel não viu, em vida terrena, a sua última grande obra publicada, estará sorrindo, na eternidade, diante do reconhecimento de uma herança, mais outra, cultural que ele nos deixa.

Piracicaba vai-se, a pouco e pouco, esvaziando de seus grandes artistas e intelectuais, de seus grandes e exemplares líderes e referenciais de piracicabanidade.Samuel Pfromm Neto está na galeria desses nossos grandes homens. Que já se sentem honrados com a presença dele na História. Adeus, amigo e mestre. Bom dia.

6 comentários

  1. Alipio Veiga em 22/11/2012 às 16:19

    Parabéns, suas palavras estão perfeitas para homenagear nosso querido professor.

  2. Walter Farianeto em 24/11/2012 às 07:00

    Isso Alípio, lembremos dele com saudades!

  3. Delza Frare Chamma em 25/11/2012 às 15:28

    Só hoje li esta crônica e soube com tristeza da morte do professor Samuel Pfromm Neto, nome de enorme importância em uma fase de nossa vida estudantil. Em nossos anos de juventude, quando eramos estudantes na Faculdade de Rio Claro, o conhecemos. Inicialmente pelos artigos e livros lidos, enquanto íamos nos iniciando nas teorias psicológicas. Mais tarde, o conhecemos pessoalmente, por palestras dadas por ele e a que íamos assistir maravilhados pela sua maneira didática e prazeirosa de apresentar o saber. Foi embora mais uma pessoa a fazer falta, muita falta, em um mundo onde não são muitos os que conseguem marcar com inteligencia, humor crítico e grande sensibilidade humanista.

  4. Vilma C. G. Andrade em 06/12/2012 às 01:45

    Foi grande o impacto e tristeza que me causou esta notícia. Não pude conter as lágrimas!! Entre muitas lembranças de quando fui sua orientanda, me veio à mente a do nosso primeiro contato pessoal por ocasião da entrevista de seleção para o meu Mestrado. Ao chegar na sala onde estavam os candidatos, ele com seu bom humor e criatividade, fez o seguinte comentário:
    "Quem souber a resposta desta pergunta, já está 50% aprovado: O que foi que o Fred gritou?"
    Enquanto todos se entreolharam com ar de espanto e curiosidade, eu… numa mistura de emoções, respondi timidamente: VILMAAAAA….!
    Ele então, com seu sorriso largo e contagioso com um acenar de cabeça, de aprovação e satisfação, me "convidou" a adentrar à sala onde se dariam as arguições específicas para a vaga por mim aspirada. A partir de então, o seu "convite" às várias áreas do saber, por diferentes mídias de aprendizagem, sempre com um toque crítico e instigante na nossa busca pelo aprendizado, contagiou a cada orientando que passou pelas suas aulas. Em outra de suas 'pérolas', ele certa vez com firmeza nos perguntou: Vocês estão aqui por causa de um "Título" ou do "Conhecimento"? Mais uma vez " li " o que por "entrelinhas" , ele queria nos passar…
    Hoje relembro mais uma vez as suas palavras, e o que somente fica, apesar das titulações, dos cargos e das conquistas alcançadas (e o seu curriculum é prova disto), é o fato vivido, a lição aprendida, e as boas mudanças construídas em nós.
    Lembrando que nunca somos os mesmos, após vivenciar e experienciar cada situação em nossas vidas, esse ou aquele problema, doença, perda, alegria ou sucesso sobre algo almejado.
    Tudo passa nessa vida, mas não sem antes acrescentar-nos, virtudes que antes não tínhamos e "Conhecimento" que nada pode nos tirar.
    Adeus Professor Pfromm, você marcou nossas vidas!
    Saudades,
    Vilma Cristina

  5. Wladir dos Santos em 16/01/2013 às 12:32

    Fui aluno desse Grande Professor, cultíssimo, querido de todos nós, no ano de 1954, no Grande Instituto de Educação Sud Mennucci, na primeira turma, chamada honrosamente por nós de "1ª TURMA DO REGIME NOVO".
    O Professor Samuel Pfronm Neto lecionava então História da Educação, junto com outros expoentes da nossa cultura pedagógica, como Prof. Benedicto de Andrade (com quem eu tive particular amizade), Prof. Archimedes Dutra, Prof. João Dutra, Profa. Maria Celestina (D.Mariinha, como a chamávamos com muito carinho), Prof.Jethro, Prof. Lino Sansogolo, Profª. Vicentina, Prof. Antonio de Morais Sampaio, Prof Arruda, Prof Godoy… Depois que nossa turma se formou (1956), nunca mais revi o querido Mestre (salvo uma vez a mais, da qual dou notícia abaixo) mas sempre lia seus escritos publicados aqui e ali, cheios sempre de um gostoso modo de narrar as coisas que pensava. Português corretíssimo, as palavras jorravam como águas cristalinas na voz sempre segura e suave.
    A última vez que pude rever o Mestre foi em um evento realizado pela CENP em S.Paulo (1983 ou 84), creio que sob auspícios da USP, do qual participei. No primeiro intervalo do segundo dia (no primeiro ele não estava), fui até o Mestre para cumprimentá-lo e dizer-lhe que tive a honra de ter sido seu aluno no Sud Mennucci. Conversamos mais ou menos durante 20 minutos, em tempo dele pedir minha opinião sobre o assunto e eu esclarecer-lhe que o tema do encontro parecia-me estar "superado", pois tratava-se de uma escola (particular) expondo sobre o uso de computadores na administração do estabelecimento.
    Não me esqueço mais da expressão dele quando eu narrei que, no Colégio João XXIII, de Americana, onde eu era então Diretor, já usava computadores e -mais ainda! – numa disciplina específica para o Magistério, que eu havia criado (Informática Aplicada à Educação), como auxiliar do processo de conhecimento, divergindo portanto, da sugestão da escola particular para uso exclusivo dessa tecnologia para fazer folhas de pagamentos.
    Como consequência o Mestre "intimou-me" a me inscrever para o dia final (seguinte), e expor aos demais Diretores de Escolas Públicas, até então cabisbaixos pela presença efusiva do representante dos estabelecimentos particulares, sobre como a nossa "escola pública podia fazer uso desse instrumental como alavanca para estudos mais profundos sobre a Epistemologia".
    No dia seguinte, infelizmente, dos 40 minutos que haviam sido previamente reservados a mim para tal mister, foi-me avisado pela Coordenação do curso que teriam sido reduzidos a apenas tres minutos, dado que havia sido facultada a manifestação a muitos outros inscritos.
    Foi o tempo necessário para que, apresentando-me como "Diretor de Escola Pública que já tem computadores, que eu havia doado ao estabelecimento, usados em aulas por alunos sob a orientação de curso de informática que eu havia pioneiramente ministrado aos Professores da escola…", para o auditório de centenas de Diretores aplaudissem em pé, numa espécie de "lavagem de alma", até com Diretoras chorando na platéia. Gastei mais dois minutos para tentar manter as pessoas quietas para eu continuar, mas foi em vão. Foi quando uma Diretora de Campinas, ligada à APEOESP, conseguiu chegar ao microfone para berrar, mirando-me furiosa em meus olhos: "o Sr deveria é estar preso por tentar fazer das crianças robôs…enquanto nossas escolas usam giz e apagador, o Sr tem uma escola com computadores…e fere nossa luta por melhores salários e condições, etc." ao que lhe repondi: "dentro de mais algum tempo, quando precisar de giz, vá buscar na minha escola pois lá estarão sobrando…!" …Nova onda de aplausos apareceu, avassaladora…mas foi o final do curso. O Mestre veio a mim para conhecer mais do meu trabalho e, conforme me disse, achava que eu estava no caminho certo. Fiquei honrado sobremaneira com isso.

  6. Vilma Cristina em 06/12/2012 às 02:11

    Foi grande o impacto e tristeza que me causou esta notícia. Não pude conter as lágrimas! Entre muitas lembranças de quando fui sua orientanda, me veio à mente a do nosso primeiro contato pessoal, por ocasião da entrevista de seleção para o meu Mestrado. Ao chegar na sala onde estavam os candidatos, ele com seu bom humor e criatividade, fez o seguinte comentário:
    "Quem souber a resposta desta pergunta, já está 50% aprovado: O que foi que o Fred gritou?"
    Enquanto todos se entreolharam com ar de espanto e curiosidade, eu… numa mistura de emoções, respondi timidamente: VILMAAAAA….!
    Ele então, com seu sorriso largo e contagioso com um acenar de cabeça, de aprovação e satisfação, me "convidou" a adentrar na sala onde se dariam as arguições específicas para a vaga por mim aspirada. A partir de então, o seu "convite" às várias áreas do saber, por diferentes mídias de aprendizagem, sempre com um toque crítico e instigante na nossa busca pelo aprendizado, contagiou a cada orientando que passou pelas suas aulas. Em outra de suas 'pérolas', ele certa vez com firmeza nos perguntou: Vocês estão aqui por causa de um "Título" ou do "Conhecimento"? Mais uma vez " li " o que por "entrelinhas" , ele queria nos passar…
    Hoje relembro novamente as suas palavras, e o que somente fica, apesar das titulações, dos cargos e das conquistas alcançadas (e o seu curriculum é prova disto), é o fato vivido, a lição aprendida, e as boas mudanças construídas em nós.
    Lembrando que nunca somos os mesmos, após vivenciar e experienciar cada situação em nossas vidas, esse ou aquele problema, doença, perda, alegria ou sucesso sobre algo almejado.
    Tudo passa nessa vida, mas não sem antes acrescentar-nos, virtudes que antes não tínhamos e "Conhecimento" que nada pode nos tirar.
    Adeus Professor Pfromm, você marcou nossas vidas!
    Saudades,
    Vilma Cristina

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