Amélia de Idiarte

picture (9)Foi uma bela, imensa história de amor, feita também de dores e de ressurreições. Eram tempos da esplêndida decência humana, de princípios estabelecidos, de homens e mulheres que viviam o cotidiano com suas crenças sólidas, olhos postos em futuro de esperanças. Amélia Gianetti Massariol foi uma dessas pessoas. E Piracicaba aprendeu a amá-la desde muito cedo, quando Amélia devolveu a vida a Idiarte, ídolo maior do futebol piracicabano, exemplo de homem e de esportista, símbolo eterno do E.C.XV de Novembro, o sofrido mas persistente “Nhô Quim”.

Idiarte não teria existido não fosse Amélia. Pois ele, o grande ídolo, mergulhara, na verdade, nas sombras e no abatimento, prostrado como homem, sofrendo a viuvez precoce com a morte de Victória Sarckis, a primeira esposa, falecida ao dar à luz o primeiro filho. O leão Idiarte se transformou no mais infeliz dos homens, o amor que desaparecera, a dor da morte, a orfandade do filho recém-nascido. A morte de Victória não atingiu apenas Idiarte e a família Massariol e SArckis: abateu Piracicaba, que se cobriu de luto, de tristeza e de medo.

Naqueles anos, as cidades tinham o seu Olimpo, de deuses humanos com a grandeza dos gregos. No XV de Novembro, estava o altar de nossos ídolos e Idiarte era o maior de todos, ainda é, quando a idade já o alcançou e, de novo, lhe vem a viuvez. A morte de Victória derrubou Idiarte e amedrontou Piracicaba, como se trevas nos cobrissem, como se castigos nos alcançassem. Idiarte, o grande Idiarte, fora cogitado para – mal subira, em 1949, o Nhô Quim à Primeira Divisão – estar entre os convocados à seleção brasileira da Copa do Mundo de 1950, nossa tragédia no Maracanã. Não foi, seu lugar ocupado pelo palmeirense Juvenal. Piracicaba lamentou-se, mas sabia que, entre nós, estava um dos grandes atletas brasileiros, que, no Estádio da Rua Regente, conseguira anular goleadores do porte de Leônidas Da Silva, Baltazar, Ademir de Menezes. Apenas Pelé venceu Idiarte.

Amélia Gianetti surgiu na vida de nosso ídolo como o anjo protetor, a mulher que lhe devolveu a alegria de viver, que se tornou a nova esposa e, mais do que isso, companheira, mãe de outros filhos, amiga e confidente ao longo da vida. O amor de Amélia devolveu forças a Idiarte Massariol que, em defesa do E.C.XV de Novembro, voltou a derramar sangue, suor e lágrimas. Ela, Amélia, foi, portanto, o anjo protetor também do XV e de Piracicaba, mulher que, em sua humildade, transmitiu nobreza ao longo da vida.

Agora, na velhice de Idiarte, Amélia se foi. Não é mais hora de prantear, mas de render graças. A Amélia, a nossa gratidão por ter sido o amor que devolveu Idiarte à vida. E bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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