Avô roqueiro

Há poucos anos, um italiano de 81 anos, aposentado, viúvo, ofereceu-se para ser adotado. A alguma família sem avô, ele se propunha a pagar bom dinheiro para cuidar dele, dizendo-se “ainda útil socialmente”. Á época, uma pergunta instigou-me: a não ser o Jairo Mattos e o pessoal dele, quem adotaria um avô?

Não ouso falar de e em velhinhos porque a Glorinha Calil, em suas sábias lições de boas maneiras, enfatizou o secularmente sabido: “Nunca se refira à idade alheia, especialmente de mulheres.” Sei que dá briga feia. No entanto, após os 80 anos, as pessoas começam a se orgulhar da idade a que chegaram. A própria Tônia Carrero, já perto dos 90, orgulhava-se de sua idade, fingindo alegria após umas duzentas plásticas. Ela exercia, com firmeza, a arte da conveniência: “A beleza está na cabeça. Idade é estado de espírito.”

Sei lá. Mas, quando me refiro a Tônia Carrero, o coração bate noutro compasso. Pois, ainda adolescente, eu me imaginava escrevendo uma peça teatral para ela. Ou para a Maysa. Ou para ambas, num só enredo. Tônia tinha algo da “Dama das Camélias”. E Maysa era musa da transgressão, a elite tocando violão em botequim, a fossa, antes da bossa. Então, a Tônia veio a Piracicaba, com Paulo Autran e Adolfo Celi, estrelando a peça de Sartre, “Huit Clos”, no Teatro São José. Acho que tive febre. Fiquei no “pulgueiro”, espiando. A beleza de Tônia me deslumbrou de tal maneira que, quando o João Chiarini ma apresentou, fugi. De tão bela, Tônia dava medo.

E fugi, também agora. Do assunto. Que começou com o avô italiano. E que segue em frente quando se fala em idade. Outro dia, numa fila de caixa de supermercado, olhei a placa avisando da preferência a idosos. À minha frente, estavam jovens que fingiam não me ver. Perdi a vergonha ou a adquiri novamente sei lá. O fato que, com cara limpa, pedi licença, passei à frente da moçada, alguém quis reclamar, afirmei com galhardia e entusiasmo: “Sou idoso, tenho preferência.” Ninguém tugiu. Nem mugiu. Paguei a conta, fui-me embora feliz da vida com esses meus novos direitos. Pelo menos esse, o de ter preferência em filas, é interessante, numa idade em que direitos de idosos são muito mais teoria do que prática. Para que alguns direitos, se já não se pode fazer muita coisa?

Vivi essa experiência de ter direito e não adiantar há algum tempo. Eu recebera uma coleção de livros com brindes preciosos: discos com músicas dos verdadeiros anos dourados, a década de 1950. Pensei ter delirado: Bing Crosby, Pat Boone, Judy Garland, Peggy Lee, Doris Day, Frank Sinatra, Elvis Presley, o início do rock, a ingenuidade dos bailes juvenis, tardes dançantes. Comei a ouvi-los caminhando pelo jardim. Então, com Elvis, o diabo apareceu, querendo tentar-me. E bão resisto a tentações. Primeiro, me sacudiu os ombros. Depois, as pernas. Em seguida, os quadris. Daí, foi tudo de embrulho: pernas, braços, ombros, quadris – um faniquito, será que pessoas ainda têm faniquito?

Temi um infarto. Mas o diabo não me largava. Elvis é Elvis. Ainda. O coração, na garganta. E os netinhos que viriam visitar o vovô? Uma idéia admirável, fantástica tentou seduzir-me: morrer dançando rock. Vi a cena e achei glorioso meus netinhos contando: “vovô morreu dançando rock” Antes do epílogo, parei.

Pensei em criar, para a próxima visita dos netos, uma surpresa, um novo “script”. Eu chamaria Elvis Presley de volta, teria faniquito outra vez, mandaria brasa – cadê Glostora, cadê óculos “rayban”? – exibindo-me, triunfante, à criançada: “Olhem aqui, vovô, ontem. É rock, é rock, uau!” Mas, pensando melhor, desisti. E se, vendo-me, meu netinho começasse a cantar “o passo do elefantinho”? Avô não presta nem para dançar rock, sei lá o que aquele velhinho italiano está pensando da vida. Acabou-se a história, morreu Vitória, que pena. Bom dia.

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