Bandidos, pá e enxada

picture (1)É uma pena seja, a linguagem humana, usada para mistificar. Palavras adquirem o significado que se lhes deseja dar, não o que têm. Mais do que hipocrisia, talvez seja medo o que tenhamos delas. Do que palavras significam. Do que dizem. Faz parte da civilização mascarar as coisas, adequando-as. As palavras, adequamo-las também. Conforme interesses do momento.

Usando as palavras para mistificar, evitando expressar o que desejamos dizer, nada mais fazemos senão manter farsas. Logo, vivemos como farsantes. A comunicação esvazia-se, torna-se desonesta. Por isso, é difícil acreditar em decisões e em propósitos oficiais. Nem mesmo em relação a bandidos. Pois a Nação simula e dissimula o que realmente deseja, acovardada para afirmar o significado verdadeiro até mesmo de instituições quando criadas. Democracia, por exemplo. Democracia não é anarquia. Logo, tudo o que for anárquico não é democrático.

Penitenciária e prisão são penitenciárias e prisões, não “unidades correcionais”. Uma escola, um sanatório, um reformatório, um centro de reabilitação social – esses são ou podem ser “unidades correcionais”. Prisão é prisão, cuja origem milenar não pretendeu corrigir ou reeducar alguém. Prisão é para punir, para tirar do convívio; penitenciária é lugar de cumprir penitência. E penitência é, sempre e no mínimo, um pesar, um sofrimento. Penitência corresponde à expiação de erros. A penitência moral e religiosa tem esse caráter. E a penitenciária é lugar da expiação do erro cometido contra a sociedade. Por mais que isso agrida inteligências acadêmicas, “recuperar” o sentenciado não é o que mais importa nas prisões: estas são lugares de purgar, da expiação.

Não se poderá, jamais, admitir que cadeias e prisões e penitenciárias sejam depósitos de pessoas, como se estas fossem lixo humanos. Podem ser lixos sociais, mas são humanos. Não se justifica, pois, e nem é admissível haver essa “solução final” nazista, amontoando pessoas num mesmo cubículo, negando-lhes um mínimo de dignidade pessoal. Quem acredita que um ser humano, lançado nas cadeias como num depósito de lixo, irá reintegrar-se a sociedades civilizadas?

Prisão não regenera e nem recupera. Prisão pune. Ou usamos as palavras em seu verdadeiro sentido ou continuaremos fingindo caridade cristã, brincando de democracia. Quem acredita, por exemplo, que penitenciárias ou prisões recuperem ou regenerem um estuprador contumaz? Ou que reintegrem assassinos profissionais, violentadores de inocentes, seqüestradores de crianças? Ora, deixemos de simulações. E de dissimulações.

A prisão não é, apenas, ato de justiça, mas um direito à vingança que nos demos. A sociedade se vinga. Ao fazer justiça, também faz vingança. As prisões estabelecem territórios: de um lado, os amigos numa sociedade organizada; de outro, os inimigos dela. Chega de mistificar.

Se é para tentar recuperações, regenerações, a pena é bíblica: o trabalho. Ao violar as normas do Paraíso, da “sociedade de Deus”, Adão não foi preso, mas expulso e condenado a trabalhar. A punição eterna, perpétua: “ganhar o pão com o suor do rosto”. Nossos bandidos, são alimentados graciosamente e com direito a visitas íntimas. “Unidades correcionais”, ora, balelas… Pá e enxada são mais corretivas do que penitenciárias de segurança. O trabalho penoso vinga e faz justiça. E bom dia.

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