Banheiro, reino do homem

Lembro-me, já há bom tempo, da fúria de um cronista eventual diante de algo que escrevi. Ele foi apenas mais um. E, aquela, apenas outra vez. Um amigo, diante da confusão que se armou, deu-me sua explicação: “O problema é que você pensa errado.” – falou. E, até hoje, não sei se ele me xingou, se foi elogio.

A questão que despertou confusão foi aparentemente banal: a cama de casal. Pois eu havia escrito que nada existe de mais terrível, absurdo, incômodo, agressivo e violador da privacidade das pessoas do que a cama de casal. Não a cama em si mesma, mas a cama para o casal dormir nela. Cama de casal é ótima para uma só pessoa, que pode esparramar-se, alargar-se, estender-se por mares conhecidos e “nunca d´antes navegados”. Até tentei estabelecer uma diferenciação, mas foi inútil: homem e mulher deitando-se juntos é uma coisa; homem e mulher dormindo juntos é outra coisa. Ou seja: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Portanto, deitar juntinho pode ser ótimo. Mas dormir junto é complicado. Trata-se, porém, de questão de preferência e nada tenho, eu, a ver com a vida dos outros. Pensando errado, quis apenas colaborar para uma reflexão: um roncando ao lado do outro, um empurrando o outro, um tirando a coberta do outro – que raio de coisa prazerosa é essa? E dores de barriga, flatulência, acidez estomacal, maus humores – qual é a graça? Ora, nem quando me apaixonei por Caroline de Mônaco – e ela nunca soube disso – imaginei situação tão incômoda. E banheiro comum?

Pensei nisso, faz tempo, ao ver e ouvir, numa discussão de tevê, mulheres xingando seus maridos e companheiros. O motivo: de quanto e de como eles se demoram no banheiro, ao contrário delas, que se dizem rápidas. E desancavam a “mania masculina”, essa, segundo elas, de ler jornais, revistas e até livros no banheiro. Nenhuma delas, porém, falou da grande, da imensa, da cruel verdade que mulheres fingem não saber: o banheiro é o castelo, o refúgio e, talvez, o único lar de um homem. A casa dele não é casa dele. É da mulher, dos filhos, do papagaio, do vizinho, do cachorro, da empregada. Não é ele quem determina horários, nem mesmo o das refeições; não é ele que escolhe vídeos ou programa de televisão. Nem ao telefone tem direito, pois mulher e filhos e todos os agregados não dão tempo e oportunidade. Homem não opina em casa. Se opina, é vaiado. Se ri, é bobo e mulher desconfia; se está triste, continua bobo e mulher também desconfia.

O homem, morando com sua família, tem apenas um espaço de sossego, de solidão, de paz: o banheiro. E, mesmo no banheiro do casal, não tem sossego. Pois mulher ou algum filho – quando não a faxineira – sempre esquecem algum objeto lá dentro ou apenas implicam: “Por que essa demora?” E netinhos, querendo tomar banho no “banheiro do vovô”? O mundo somente será melhor no dia em que mulher e filhos tiverem a sabedoria e a compaixão de entender a importância fundamental, vital, essencial do banheiro para o homem

Acreditem, pois, mulheres: o banheiro é o único lugar de descanso, de refúgio do homem, o sacrossanto e único espaço que ele tem para fugir de sua própria família, para não ouvir e não ver nada. Somente haverá civilização quando cada homem tiver seu banheiro pessoal. Depois de querer garantir três refeições ao dia a cada brasileiro, talvez o Lula pudesse prometer um banheiro para cada um. Mas, morando em casa separada, não tenho nada com isso. Mais ainda, a minha realidade conjugal é espetacular, gloriosa, saudável: minha mulher na cidade dela; eu, na minha. E encontros generosos aos fins de semana.

Isso pode ser “pensar errado”, mas “sou homem e sou feliz, tem inveja quem me diz”. Falei e disse. Bom dia.

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