Bodas de se comemorar na praça

picture (15)Quando recebo convites de bodas de ouro de casais conhecidos, entro quase que em pânico. E a luz se me faz, o que me leva a sobressaltar-me já nem sei se de susto, se de pânico. Aliás, devo, pela vida, estar caminhando distraído demais, pois quase tudo me espanta e me sobressalta, quando nada mais deveria causar-me estranhezas. Dizem, porém, ser bom, o espanto. Pois quem se espanta maravilha-se. E ó que me ocorre diante desses convites que me parecem mágicos.

Então, voarm-me os pensamentos, acabo rindo-me de minha incapacidade de entender as coisas. Nas mãos, tais convites parecem como que dessas divertidas brincadeiras que a vida faz com a fragilidade da inteligência humana. Tudo é tão simples e, no entanto, a razão consegue complicar, querendo entender, equacionar. O amor, por exemplo.

Tolos e pretensiosos, racionalizamos, indagando se o amor realmente existe e, quando existe, se é eterno. Um convite de bodas de ouro de casamento contraria quase tudo o que se tem dito do amor, do matrimônio, da vida a dois. Era uma resposta: o amor é eterno e existe. E os meus repentinos susto e espanto acontecem-me por perceber que não se trata de amor de “romanza”, de amor assexuado, de amor cortês, de amor idealizado, amor de álbum de família. Da última vez, foram amigos meus, casal muito próximo, completando as bodas de ouro.

Fiquei em suspenso, com uma outra pergunta instigando-me: “Sou um idiota ou um tolo? Ou é a mesma coisa?” O casal, pouco mais idoso do que eu, não percebi tivesse chegado às bodas de ouro, dando, por 50 anos, o testemunho de um amor vivo, verdadeiro, real, possível. Estiveram o meu lado em muitos desses anos e eu não percebera. O amor, portanto, passava por mim, impregnava-me, contagiava – e não vi.

Ora, serei castigado. Pois haverá de ser punido aquele a quem, tendo sido reveladas tantas maravilhas, não as cultivou. E eu, incompetente para amores definitivos, faço de conta não existir eternidade de amor, amores que sobrevivam. A incapacidade de amar foi minha e dou-me conta de ter imaginado fosse de todos. Pois tenho sido testemunha de amores eternos e, talvez por temê-los, fingi acreditar na simples relatividade do homem, fugindo ao absoluto do espírito. O amor é mais do que um discurso.

Nunca tive o direito de duvidar disso. Repito, repetindo-me: vi meu pai morrer de amor. Quando minha mãe, sua amada, se foi, ele começou a apagar-se como vela chegando ao fim. Meses depois, num entardecer, recolhi-o do túmulo de minha mãe, onde se deitara para morrer. Caiu sobre o jazigo, ficou. Morreu de amor.

Confesso: sempre ao ver, no altar, um casal celebrando bodas de ouro, via-o apenas com ternura, como se presenciando batizado de criancinhas. Mas não me era lícito duvidar. Pois, de ouro, uma celebração houve que deveria ter-me ficado como lição. Os avós de meus filhos, pais de minha mulher, depois falecida, comemoraram cinqüentenário de união. No altar, o velho noivo, o avô, aguardou a noiva chegar. E ela, a avozinha, surgiu, ao som da marcha nupcial, levada pelo próprio pai, um ancião com quase 100 anos. Filhos meus viam o bisavô, meio século depois, levando a avó deles para os braços do avô. Eu também vi. E não aprendi.

Eu ia sugerir à hierarquia católica que se celebrassem bodas de ouro em praça pública, pelo bispo e por todo o clero, convocando multidões. Só para relembrar que o amor existe. E faríamos apenas festinhas simples para casamentos jovens, que, já se sabe, terminam, quase todos, com questõezinhas do cotidiano. Bom dia.

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