Bolinha de papel e plebe ignara

Plebe ignaraNo desespero de tentar criar fatos novos que revertam as intenções de votos, José Serra e sua assessoria correm o risco de cair no mais lastimável ridículo. Tornam-se patéticos a cada dia que passa, revelando, também, ser péssimos atores. O episódio da “ bolinha de papel” ou do rolinho de fita crepe que lhe atingiram o alto do cocuruto é de uma farsa momesca. Se fosse apenas a “bolinha de papel”, já seria ridículo. Sendo um simples rolinho, toda a “mise-em-scène” – de ir ao hospital, de fazer tomografia, de quase chorar de dor e de indignação – revela a ópera bufa com lamentáveis diretores, cenógrafos e atores. No script, precisou um aviso por telefone celular para a dor surgir.

Ora, ser vaiado e atingido pela multidão, isso – por mais lamentável seja – faz parte dos grandes espetáculos de massa, seja na política, seja nos esportes, nas artes. Ninguém está livre disso, mesmo porque se trata de um risco próprio da atividade pública, sendo ingênuo ou de má fé o que acreditar não venha a ser molestado pelo povo, essa plebe e turba ignaras como os burgueses de tripa farta as chamam.

A Primeira Guerra Mundial começou com um tiro vindo da multidão, fazendo extravasar o copo de cólera da Europa. Um jovem sérvio, fanático, atirou contra o príncipe Francisco Ferdinando, do Império Austro-Húngaro. A partir de um gesto enlouquecido, a Europa e o mundo foram banhados de sangue.

Em pleno teatro, entre a elite cultural de seu tempo, um também fanático assassinou Abraham Lincoln. Um outro irresponsável, enquanto a turba aplaudia nas ruas, atirou no presidente John Kennedy, matando-o. E, em meio a aficcionados e admiradores, pequena multidão num corredor de hotel, um psicopata praticou o atentado que tirou a vida de Bob Kennedy. Ronald Reagan quase morreu por um tiro de um lunático. E mais: João Paulo II, com sua autoridade moral reconhecida pelo mundo, tornou-se vítima da bala de um fanático turco enquanto abençoava os fiéis em rua do Vaticano. Martim Luther King, pacifista visceral, não escapou ao ódio de um louco. E Johnn Lennon, que cantou o sonho, também.

No Brasil, apenas lembrando de uma ou outra situação, Fernando Collor foi escorraçado pela multidão que o vaiou, apupou, lançou artefatos sobre ele. E José Sarney teve o ônibus, onde se encontrava, atingido por ovos e outros objetos. Ora, a história está recheada de vítimas do fanatismo, da irresponsabilidade, da loucura que nos chega das ruas, onde quer que se aglomerem multidões.

Lastimável? Sim. Mas assim são as turbas, imprevisíveis. E, assim, é o ser humano em estado bruto: não controla emoções e paixões. José Serra tem despertado essa ojeriza popular, por sua falta de empatia com o povo. Se a classe política está desmoralizada – e a população saturada de farsas – nada há a estranhar diante de reações previsíveis, mesmo que lamentáveis, por parte da turba ignara, que é ignara exatamente por isso mesmo. Aliás, houve tempo em que Fernando Henrique, para evitar constrangimentos e agressões, não mais saiu às ruas e praças, limitando-se a encontros em ambientes fechados. Por enquanto, parece ser Lula o privilegiado, que, antes de ser vaiado e agredido, é carregado pelo povo com quem se identifica. Ou é à-toa que Lula tenha 82% de aprovação da população brasileira? Pois é. A plebe – como os aristocratas chamam o povo – que vaia é a mesma que aplaude.

José Serra falhou na dramatização, como sua mulher, Dona Mônica, havia errado ao dizer que Dilma “gostava de matar criancinhas”. E foi ela, dona Mônica, quem praticou o aborto. Se essa campanha não terminar logo, o bumerangue irá voltar cada vez mais violentamente à sua origem. Vaiar, apupar, reagir é a única forma de expressão de um povo sem porta-vozes nos meios de comunicação. Bom dia.

Deixe um comentário