Brincar de Deus

picture (3)Recebi uma bela mensagem de alguém decidido a demitir-se das complicações e massacres cotidianos. Ao amigo que ma enviou, respondi quase envaidecido por pensar estar descomplicando minhas coisas. Contive-me, porém, a tempo. Pois, na realidade, querendo descomplicar, descubro estar complicando mais. Que raio, por exemplo, busquei, quando, há algum tempo, me matriculei num curso de Bioética? Quem procura sarna para se coçar acaba achando. Achei.

Lia-se, até pouco tempo, nos muros das cidades: “Parem o mundo que eu quero descer.”, acho que do Raul Seixas. A minha sensação é semelhante, na atordoação de giros de carrossel. Lembro-me, até, na distante infância, do quase desespero quando a roda-gigante parou e eu me vi desprotegido nas alturas, a certeza de que tudo iria despencar. Vi-me flutuando, sem chão sob os pés, a certeza de estar solto no mundo. Não gostei e nunca mais subi em rodas-gigantes. Mas é impossível escapar ao carrossel da vida. Mesmo recolhendo-se, não se foge à nossa fatalidade: o humano pertence à humanidade.

Perguntaram-me a razão de eu ter feito aquele curso. Ora, se jornalista é especialista em generalidades, há que buscar informar-se, pelo menos, da epiderme das coisas. De jogo de botão a receita de pizza, do que acontece em “Caras”e da última explosão no Iraque.. Além, é óbvio, das repetitivas vulgaridades políticas, de vinhos novos em barris velhos, de vinhos velhos em barris novos. “Tutti quanti”, “tutti frutti”, mas que se há de fazer?

O fato é que apenas me compliquei. E Júlio Verne, Orwell, Aldous Huxley, todos eles me parecem, agora, humildes contadores de histórias da carochinha, das menos criativas aliás. As coisas estão saindo conforme a mais delirante imaginação humana. Frankenstein já existe. E o Dr. Fausto e Mefistófeles dançam cirandinha juntos. Em “O Admirável Mundo Novo”, de Huxley, a observação dramática de um dos personagens inquietava: “Havia uma coisa chamada alma e uma coisa chamada imortalidade.” Busca-se, agora, a imortalidade da carne. Compliquei-me ainda mais.

Lembro-me de ter contado o que me aconteceu após a angústia das primeiras aulas daquele curso que ainda não entendi.: fui ao dentista, os pensamentos se me embaralhavam, pois as hipóteses são cada vez mais alucinadas e alucinantes: sangue sintético, herdeiros disputando os chips dos pais onde se encerrariam a cultura, o conhecimento, a experiência deles; exércitos de clones à disposição de ditadores; a era pós-humana, chegando em seguida a esse nosso tempo em que, no ventre materno, já se fala em pré-pessoas. É isso: pré-pessoas e pós-humanos. Então, eu vi uma revista do Cebolinha. Li, a alma retornou ao lugar, os pensamentos higienizaram-se. Voltei a sentir-me humano. Cebolinha ajuda a resolver. Pelo menos, é mais divertido.

Nas belíssimas imagens do homem que disse estar aposentando-se desse mundo, há convites tentadores, visões paradisíacas, o shangrilá, a sedução do alheamento. Mas não resolve nada. O progresso tecnológico é irreversível. A vontade humana – também de uma consciência coletiva – irá definir a escolha: em favor do progresso moral, do êxito econômico? A descoberta da pólvora parece, ainda, servir-nos como um dos exemplos. Fala-se que, inventando-a, os chineses fizeram, com ela, fogos de artifício, embelezando o espaço. Outros construíram canhões.

Diz-se que Einstein, vendo a tragédia da bomba, lamentou-se: “Há coisas que não devem ser feitas.” Brincar de deus é perigoso. Bom dia.

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