Cada fila com seu drama

Não há quem goste de fila. Mas, queiramos ou não, fila é, em alguns momentos, uma das mais puras formas democráticas, desde que obedecida. Há casos em que, por “furarem” fila, pessoas foram quase linchadas. Pois, numa fila – e havendo respeito – não há ricos e pobres, poderosos ou humildes, ainda seja inevitável a existência de espertinhos ou prepotentes.

Filas, uns as suportam mais; outros, menos. Mas se elas existem, ou se há que enfrentá-las ou, então, fugir delas. Certa vez, por não suportar filas, escapei de ser enviado, no auge da ditadura, à Ilha das Cobras. Entre outros jornalistas, políticos, líderes sindicais, passei muitas horas sendo ouvido por aqueles delegados truculentos do antigo DEOPS. Com eles, aprendi a conhecer essa enfermidade moral que se chama sadismo. Então, dispensaram-me e me orientaram a ficar numa determinada fila. Obedeci. E a fila não se movimentava. E fiquei olhando, no salão do DEOPS, a porta que se abria e que se fechava mostrando a rua ao lado. Alguns entravam, outros saíam. Na mais absoluta ingenuidade, perguntei-me por que ficar na fila se, andando alguns passos, eu poderia estar na rua. E saí. Com naturalidade tal que ninguém me importunou. Mas foi ao sair que descobri: aquela fila, da qual saí por preguiça e impaciência, era a dos que se tornariam presos políticos na Ilha das Cobras… Naqueles tempos, até para o inferno havia fila.

Há, no entanto, pelo menos para mim, filas que emocionam. Como as de dia de eleições. Ora, mas que escrevo eu? Dizer que eleições emocionam é pleonasmo. Votar dá tremedeira. Dá palpitação. Há um “je ne sais quoi” , um não sei quê capaz de bambear os joelhos. E, por mais murmúrios haja nos recintos de votação e por mais extensas sejam as filas, fica, no ar, uma eletricidade ao mesmo tempo nervosa e reverencial. É um momento ritualístico. Eleições têm liturgia de igreja. E, quanto mais humildes e pobrezinhas as pessoas, mais se percebe, nelas, como que manifestações ou certezas de fé. Entre as mãos, levam seus títulos de eleitor, nomes e números de candidatos, parecendo carregar livros de missa, de orações, às vezes segurando-os junto ao peito como se fazia com aqueles antigos bentinhos, escapulários. Votar é, na alma do povo, participar de um culto ou exercê-lo, uma forma tão solitária de poder e de soberania que se assemelha a uma eucaristia: a comunhão da pessoa com aquilo em que ela acredita.

Em fila de votação, quando se conversa, conversam-se banalidades, à meia-voz. E um não ouve o que o outro fala. Talvez, de alguma significativa, seja como naquelas antigas filas de confessionário, cada pessoa com o seu segredo. Exceção se faça ao adolescente e sua paixão, quando – até diante do padre – quer revelar a todos o seu amor, buscando platéia e cúmplices. O segredo da democracia, de tão forte, parece ser insuportável. E, ao mesmo tempo, é o grande poder da gente humilde e desprotegida: ao votar, há, quando se quer ou se tem consciência, uma total libertação. Não há quem mande, não há para quem dar satisfações. E, de certa forma, é, também, até mesmo uma hora de vingança. Contra a iniqüidade, contra a tirania, contra a injustiça.

Já antevejo a emoção das eleições deste ano, quando máscaras indecentes podem, finalmente, cair. Afinal de contas, é de Abraham Lincoln a lição de esperança: Pode-se enganar a muitos por algum tempo; Pode-se mesmo enganar alguns por muito tempo; Mas não se pode enganar a todos todo o tempo.” A menos que igrejas de mercado interfiram… Bom dia.

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