Cafezinho da China

picture (13)Principalmente quando se é jovem, nunca nos damos conta de que, realmente, as longas marchas começam com um primeiro passo. Andamos, caminhamos. Corremos. Atropelamos e atropelamo-nos. Não se olha para trás e quase não se vê o chão onde se pisa. Mira-se o horizonte, busca-se o futuro. E não percebemos o quanto – à medida que se anda – mais distante o horizonte fica. E que o futuro não existe senão como hipótese ou expectativa.

Quase sempre somos testemunhas de histórias que se iniciam ou da própria história que se desenrola. E também não o percebemos. Pois – baratas tontas ou formigas obreiras – giramos, rodamos, andamos. E nos tornamos tanto aquilo de que participamos e tão exuberante a festa da vida que as pegadas iniciais misturaram-se a todas as outras. Onde comecei? Por onde? Quando? São perguntas que fazemos sem, talvez, nos darmos conta de que – no resumo de tudo – ficamos no mesmo lugar. O horizonte estava aqui. E o futuro era hoje. Foi ontem.

Ora, comecei pensando em escrever sobre o cafezinho chinês, quase me perco na dimensão misteriosa do tempo, “corre o tempo cruel”, “tempus fugit”. Mas, na realidade, o cafezinho chinês e o tempo – que voa, a hora que passa – correlacionam-se em minhas lembranças. Que se aguçaram com essas relações do Brasil e do empresariado brasileiro com a China. É sonho antigo, como que esperança de náufrago diante de uma tábua onde agarrar-se. A China é, ainda, o mistério e o sonho e a esperança. O Brasil amplia seu comércio com os chineses. E – quem diria? – sem querer, testemunhei o que, agora, dizem ter sido o passo primeiro. E eu nem sabia.

Jornais e revistas honraram, há algum tempo, o empresário brasileiro que, pioneiramente, tentou abrir o fantástico mercado da China: Horácio Coimbra, o homem do café solúvel. E pois é, meninos, aí está: eu vi. Acho que em 1978, o então todo poderoso Delfim Neto – deixando a embaixada de Paris – pretendia ser o indicado ao governo de São Paulo, sucedendo Laudo Natel. A Arena dividia-se sob as lideranças de Rafael Baldacci, Laudo, Maluf e Adhemarzinho de Barros. Organizando-se, Delfim instalou-se em salas que lhe foram cedidas por Horácio Coimbra, na rua Nestor Pestana, quase em frente ao Teatro Cultura Artística, que se incendiou há pouco tempo. Caprichos do destino tornaram-me próximo do ministro, então, para nós, “o professor”. Seu apartamento, na Peixoto Gomide, era uma casa de artes: telas preciosas, esculturas notáveis, livros raros. E, na Nestor Pestana, o lugar das articulações.

Foi lá, certa tarde, que ouvi Horácio Coimbra pedir, a Delfim Neto, apoio e cobertura para tentar a realização de um sonho: conquistar o mercado da China com café solúvel. Moço alheio a números e a negócios, foi o raciocínio audacioso de Coimbra que me espantou: em seu sonho, ele pretendia mudar – “um pouquinho só, só um pouquinho” – alguns hábitos chineses. Então, em vez de apenas chá, o chinês passaria a tomar também cafezinho. Calculava: “Sendo um bilhão de chineses, se cada um tomar dois cafezinhos por dia, serão dois bilhões de xícaras de café diárias.” Portanto, um negócio da China. Como café pede também açúcar, usineiros piracicabanos poderiam colocar uma placa nos canaviais: “Destino China”. Bom dia.

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