Vazio baiano

picture (14)Gentil, gentilíssima, era voz feminina, jovial nos seus 40, 50 anos. Ela, a mulher, dizia estar com mais de 70, “anciã”, insistiu. Gentilezas não têm idade, insisti de minha parte. Ela respondeu com outras gentilezas. E desculpou-se por uma observação: “Você anda cansado, percebo pelo que escreve.” Agradeci a atenção, expliquei o óbvio: cansaço, cansaço imenso. Ela não acreditou. Eu também não. Há algo mais do que a estafa. Talvez, vazios – por que não?

Admiti a sensação de vácuo, a prostração após escrever tanta coisa que até me confunde, entre livros e crônicas e muitos textos, avalancha de letras e de frases e de idéias. “Uns dias em Salvador, alma, corpo, espírito, coração, tudo reanimaria.” – voltei a garantir à amável senhora.. Ai, Salvador, “mon amour”: caldinho de caranguejo, camarões, chope à beira mar, caipirinha, papo pro ar, sol e sal, céu azul, brisa morna, vatapá e acarajé, mãe-de-santo, capoeira, mulata sensual, búzios prometendo amores, cheiro de vida no ar, velhos amigos. E a Dadá. Ai.

A última não valeu, mas a penúltima vez em que estive em Salvador foi a trabalho. Ainda não acredito ter cometido estupidez tamanha: estar em Salvador, sozinho, mas com terno e gravata para tratar de questões acadêmicas, pode haver idiotice maior? Um homem solitário em Salvador, comportando-se como monge? Não me conformo. Pior ainda: não me perdôo. O maior pecado é não cometer alguns pecados caídos do céu, de graça. Por isso, quero, preciso voltar. Há desforras a fazer.

A Dadá não é mais mesma, tendo-se sofisticado com a fama. Mas, naqueles dias idiotas de trabalho em Salvador, amigos levaram-me à Dadá, então pouco conhecida. Seu restaurante era um simples quintal. A ele, tinham acesso apenas pessoas conhecidas. Eu era convidado de meus amigos. E a Carolina Ferraz –separando-se do marido, judiação – também. Que pena eu tive dela, tão desconsolada, coitadinha. E eu, solitário, sem nada poder fazer.

A Dadá, gentil, com dois solitários: “Fiquem à vontade, vocês têm a noite toda.” E oferecia: “Provem desse caldinho, é afrodisíaco.” Depois: “Mais um chopinho, é bom para a alma.” Meus amigos foram-se embora. E ficamos lá, a Carolina e eu. Conversando. Dá para acreditar? Apenas e tão somente conversando, provam-no os céus. Daí, despedi-me: “Tenho trabalho logo cedo.” A Dadá me olhou com esquisitice. E me perguntou se era verdade, em São Paulo, estar na moda ser “gay”. Quase chorei.

Para estar em Salvador, eu não faria questão de ter minha mulher ao lado. Bastar-me-ia estar em Salvador. Em estado contemplativo, apenas apreciando o belo. Infeliz do homem insensível à beleza esplendorosa, incapaz de extasiar-se diante do êxtase. Infeliz do que não vê, não ouve, não sente o sabor e o perfume, não apalpa as prazerosas provas da existência dos deuses, do bom gosto da criação, do imensurável senso artístico das divindades. Toda a natureza é obra divina. E a mulata baiana, a obra prima. Escrevi besteira? .

Pudesse eu, estaria agora mesmo lá. E visitaria meu amigo ao lado de Itapuã. E ele chamaria outros amigos. E, nas redes estendidas, veríamos a tarde cair, a noite tornar-se cada vez mais criança, a mulata passar. Eles me contariam mentiras de baiano, todas elas com sabor de dendê. E eu acreditaria. À boca da madrugada, iríamos dançar num boteco de ruela, as pessoas rindo-se de minha timidez diante da baiana sensual – pois, na frente de outras pessoas, fico atacado de timidez. Bobo não sou.

Sei lá se de cansaço, se de vontade, pode parecer loucura mas tenho certeza de estar em Salvador. E deliro. Bom dia.

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