Carcanhá de pato e garapa

picture (39)Um dos meus grandes amigos no jornalismo é o campineiro Moacyr de Castro, consagrado jornalista no “Estadão”, atualmente em atividades frenéticas em Ribeirão Preto. Certa vez, em sadia brincadeira, o Moacyr revelou que toda a vitalidade da caipiracicabanada estava no que, em resposta, chamei de segredo do Santo Graal. Pois o Moacyr garantiu ser a garapa da cana a fonte da inesgotável energia da piracicabanada.

Como a cana, o álcool e também a garapa estão na moda – inquietando até o pessoal da ONU, que anuncia guerra entre povos – acho por bem prepararmo-nos, os piracicabanos, para essa disputa energética. Aliás, seria bom lembrar que o próprio chamado “hino do XV” nasceu dessa ciumeira toda, da rivalidade esportiva entre Piracicaba e Campinas, entre XV, Guarani e Ponte Preta. No futebol, repetiam-se disputas que vêm desde as rixas de Prudente de Moraes e Campos Salles.

Pois bem. Torcedor da Ponte Preta – informei a meu amigo Moacyr Castro – morria de inveja e não sabia que era a garapa de cana o segredo da admirável vitalidade piracicabana. A torcida da Macaca vinha a Piracicaba, olhava os machões que torciam pelo “Nhô Quim”, ficavam com ataques histéricos e gritavam: “Carcanhá de pato, perna de barata, bícaro de pato, cortador de cana, Peracecaba, Peracecaba.”, os bobos. Em resposta, os gloriosos machos piracicabanos empanturravam-se de garapa, arrotavam e respondiam num brado heróico e retumbante: “Bicha, bicha, bicha.” A torcida da Ponte fingia não saber se bicha era a Macaca, se a própria torcida.

Evito contar algumas coisas, mas o Moacyr Castro estragou tudo. No meu tempo da faculdade de Direito, lá em Campinas, zombávamos dos colegas dizendo que éramos, os rapagões de Piracicaba, os preferidos das raparigas da escola. E fui claro: sem exceção alguma, todos nós, belos, fortes, másculos, inteligentes. Sem exceção. Pois, em Piracicaba, se há coisa que não existe, essa é a exceção. Bastava rapaz campineiro apontar um de nós – “cortador de cana, cortador de cana, caipira” – as gentis donzelas lançavam olhares lânguidos e promissores. Um amigo meu – o único campineiro que se tornou mais próximo, o único, um só – perguntava: “O que é que vocês do interior têm que nós, de Campinas, não temos?” Ele, pensando Campinas fosse capital, morreu sem saber.

Ao Moacyr Castro, expliquei, sem fingir humildade: Piracicaba é terra de macho, sim, senhor. Onde é a terra da pamonha? E a terra do peixe, onde era?E a terra da pinga? Lá. E a terra da polenta? E inventei: é Pira, é Pira, é Pira-pa(pamonha), Pira-pe(peixe), Pira-pi(pinga), Pira-po(polenta). E, enfim, Pira-pu, pois descobri que Pira-pu também existe. E contei para o Moacyr Castro o que me aconteceu numa praia de deserta, perto de Cambury, coisa que espalhei por aí.

Foi quando entendi: Piracicaba é uma “griffe”, marca caipira, especial. Naquela praia, eu me isolara para concluir um livro. E, para me alimentar, ia a um lugarejo vizinho. Certa noite, jantando num boteco, alguns caiçaras se proximaram, beberam cervejinha comigo, contaram-me causos e, descobrindo ser eu piracicabano, maravilharam-se: “Então, precisa conhecer a nossa zona. Aqui, só tem puta de Piracicaba.” – exclamaram, orgulhosos. Curiosíssimo, deixei-me levar. As moças eram de muitos lugares, menos de Piracicaba. Mas, para elas, era “marca especial” dizerem-se piracicabanas. Então, estava consagrado também o Pira-pu(puta). E bom dia.

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