Casualidade e destino

DestinoA vontade humana é, penso eu, apenas desejo. Diz-se que o homem ocidental é vontade, liberdade, inteligência. Mas, na soma de todos os acidentes da vida, o ser humano é dependência. Minha inteligência não determina o meu destino. Há heranças genéticas, componentes exteriores, imprevistos, até mesmo simples casualidades. E lá me vou, eu, lutando e esperneando diante do enigma com nome de destino. Se está escrito, tento rabiscar e fazer a minha escritura – acabo vencido. O segredo da vida está, talvez, em saber perder.

Como descendente de árabes, deveria acreditar estar tudo escrito nas estrelas, o “macktub”. No fundo de mim, gostaria de acreditar nisso, mas não consigo. De repente, porém, eis que me rendo diante de fatos, acontecimentos, imprevistos, desvios de rota, planos que se esboroam e, então, me submeto, impotente diante do não-entendimento. E lá me consolo eu: “macktub”, estava escrito. E continuo sem saber se é ou não verdade.

É o mesmo, parece-me, que ocorre com os que deixam a responsabilidade à “vontade de Deus”. Certa vez, nunca mais me esqueço disso, uma filhinha minha, hospitalizada, não reagia ao tratamento, ia definhando, definhando, como se a morte já estivesse arrumando-lhe as malinhas. O médico, generoso e competente, me tocou o ombro, falou em voz baixa: “Está nas mãos de Deus.” E eu, àquela época, recusava-me a qualquer ideia de um deus, fosse qual fosse, mergulhado e intoxicado pelo materialismo marxista. Senti-me, então, perdido: se, para mim, Deus não existia, como a vida de minha filha poderia ficar a mercê do inexistente?

Vi, então, uma cena da qual também nunca mais me esqueci. Andando pelos corredores do hospital, perplexo e angustiado, o desespero fechando-me ainda mais a alma, passei diante da capela e, na penumbra do pequenino lugar, vi o que me desnorteou: o médico de minha filha estava ajoelhado diante do altar, em lágrimas, orando. Um terremoto de emoções me estraçalhou por dentro. Eu, pai, não tinha um deus para pedir. O médico, com toda a sua ciência, pedia, por minha filha, a um deus em que ele confiava.

O fato é que, dois dias depois, a menina sorria no pequenino leito de hospital, as cores haviam-lhe voltado ao rostinho lindo como que numa ressurreição. Envergonhado, agradeci o médico, paguei-lhe os honorários, mas me recusei a agradecer ao deus a quem ele pedira uma solução. Aprendi, porém, a acreditar na existência do mistério. E a respeitá-lo.

Estou querendo dizer, na verdade, que não acredito em destino, em predestinação, em determinismo. Mas não creio mais, também, no simples livre arbítrio do homem como condutor de suas próprias escolhas. Há mais do que isso. Minha vontade e minhas escolhas estão sujeitas ao imponderável, até mesmo a simples casualidades. Pois algo apenas casual pode ser causa de toda uma mudança de rota, de planos, até mesmo de vida. A casualidade é, quase sempre, causalidade. Um encontro inesperado pode mudar destinos. E a vontade humana muda, transforma-se, tornando-se outra vontade. O nome disso, acho, é volubilidade. Somos volúveis diante dos imprevistos da vida. Há coisas que se não mantêm. Se não houver raízes sólidas, os galhos despencam, a árvore morre, não há frutos.

Enfim, viver não é para principiantes. Pois, mesmo não se acreditando nelas, as bruxas existem. Bom dia.

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