Conselhos a Filipe

Por muitos anos, caminhei pelos largos espaços da Santa Rita, margeando o belo lago. Quase sempre, acompanhava-me de meu filho da alma, então garoto, e de um cão que me fazia festas. Certa vez, o menino – vendo chumaços de grama brotando das frestas do asfalto abandonado – falou-me: “Se ninguém cortar o mato, ele nasce do asfalto, rompe o chão das casas, invade tudo”. Ele, pequenino, falava da força da vida, da soberania da natureza e, de alguma forma, de como todas as coisas estão prontas. Basta o homem deixar de atrapalhar.

Ora, quando se lançou a bomba sobre o atol de Bikini, acreditou-se em sua destruição definitiva. Alguns anos depois, sem a presença do homem, voltou a ser um jardim. Acultura-se o homem, mas a essência humana permanece a mesma. Penso nisso e me convenço de que, realmente, nada há de novo sob o Sol. Novos, são apenas os momentos e circunstâncias. E a obra, pronta e acabada, nós apenas a desfiguramos. Na verdade, não há sequer nem mais o que escrever ou falar, pois tudo já foi dito e escrito, pensado e falado. Talvez, a última riqueza – que vamos perdendo – seja o silêncio para ouvir e refletir. E não destruir o que ainda resta.

Os tolos pensam que o mundo começa a partir deles próprios. Como se não tivessem ancestrais, passado, história. Vivem o ridículo da mediocridade e não percebem. E, talvez, nunca, como agora, a classe política tornou-se o espaço preferencial de concentração de tantos tolos, seja em governos, em partidos, em instituições. Basta um cargo de confiança ou de comando, apenas um, para o tolo brilhar gloriosamente. Seja no palácio, no omando da tropa, na chefia de apartamentos, incluindo os de educação. Um tolo, no comando, torna-se tirano de opereta.

Sinto-me tolo também, ao concluir a leitura do livro “Filipe da Espanha”, de Henry Kamen. O garoto, nas andanças da Santa Rita, tinha razão: basta não cortar o mato, não interromper a vida, que tudo continua nascendo, repetindo-se, ciclos após ciclos. Ao término de “Filipe da Espanha” – uma história que começou em 1527 – dou-me conta de que tudo está lá, ainda lá, agora com o nome de globalização. Os desejos imperiais, os conflitos entre nações, as lutas pelo poder, a internacionalização das forças. Piracicaba também está lá, no poder paroquial, interesses, bajulações, os tiranetes de fancaria. Mudaram apenas circunstâncias, geografias, personagens, momentos históricos.

Escritas há 500 anos, as cartas do rei Carlos – ao filho que se tornaria Filipe, o Grande – poderiam servir para Bush, José Machado, para mim, para o síndico do prédio, o sargento da Polícia Militar ou chefe de departamento de educação. Transcrevo alguns trechos e entenda-o quem puder:

“( … ) aceite bons conselhos a qualquer momento; ( … ) nunca permita que heresias entrem em seus domínios; seja um defensor da justiça e elimine toda a corrupção entre seus funcionários; seja comedido e moderado em tudo o que fizer. Mantenha-se livre da raiva e nada faça em cólera: evite os aduladores, mas aceite os bons conselhos que lhe são dados por seus conselheiros. Preserve sua liberdade para que suas opiniões sejam dadas livremente; ao dar audiência, seja paciente; encontre tempo para se aproximar do povo e conversar com ele; nunca se coloque nas mãos de um único ministro; ao contrário, trate com muitos e não se ate a um único deles; não deixe que os grandes consigam uma posição segura no governo ou você se arrependerá depois.”

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