Quarenta

– Texto publicado originalmente em Jornal de Piracicaba em 16-09-2003

Ela ia fazer 40 anos, entrou em desespero. E eu já os tinha feito, pensando fosse como que uma glória ter chegado aos 40 anos. “Meia idade”, pensei. Pois, se estivesse na metade, eu teria mais 40 anos pela frente e isso seria bom, pelo menos àquela época. A mulher, no entanto, deprimiu-se, prostrada: “Quarenta anos, menopausa, filhos crescendo, solidão … ”

Tão prostrada ficou a coitadinha que pensava e escrevia em metáforas, sem perceber que isso lhe agravava ainda mais a sua aflição. Lamuriante, disse que lhe chegava o Outono antes ter conhecido a Primavera. Embraveci. Se ela não se vira em estado primaveril, que diabo de rei tinha lá sido eu? O fato é que ela, sem ter tido Primavera e esperando vir-lhe o Outono, acabou indo direto para o Inverno. E congelou-se de frio.

Ter chegado aos 40 anos, quando cheguei, foi-me esplendoroso. Era a idade do lupinismo e, então, eu ma tornar-me lupisomem. O que é isso? E isso mesmo: idade do lobo, do lobisomem. Fica, porém, mais cauteloso – e desperta menos malícia – referir-se a lupinismo do que à idade do lobo. E inspira menos receio falar de lupisomem do que de lobisomem. Mas dá tudo na mesma.

Algum dia, porém – quando preconceitos e equívocos se desfizerem – o mundo irá reconhecer o esplendor formidável do homem de 40 anos e sua fome lupina. Sem malícias e maledicências, haverá, então, que maravilhar-se com o espetáculo do quarentão faminto e famélico: fome de vida, fome de alegria, fome de trabalho, fome de sabedoria, fome de mundo, no meio do caminho, na meia-idade.

Quem tiver sorte ou esperteza, descobrirá que, além da do lobo, é, também, a idade da coruja para a qual as trevas não são tão escuras e, por isso, a noite pode ser tão clara como o dia. E o amanhecer, tão parecido ao anoitecer. Coruja e lobo sabem – como o homem nos 40 anos – ser possível fazer, durante o dia, tudo o que se faz à noite; e, fazer à noite, tudo o que se fazia só durante o dia. Há sutilezas nisso. Coruja não é bem-te-vi.

Confesso estar levando mais em conta essa revolução humana dos 40 anos. Talvez, esteja entendendo-a melhor do que quando aconteceu comigo e em mim. Pois percebo, nos outros, que, até os 40 anos, é como se fosse um tempo de purgação, de aprendizado. E, então, conclui-se um ciclo e recebe-se o certificado de que, chegando aos 40 anos, homens e mulheres ingressam na adolescência da maturidade. E, então, é para valer. Não tem volta.

Convivendo com homens e mulheres de 40 anos, vejo, neles, o fruto pronto, pedindo para ser saboreado: deixou de ser verde e ainda não amarelou. Esses lobos e 100bas são o esplendor de qualquer sociedade. E, no entanto, nem todas sabem fortalecer-se da energia que eles têm, saborear a doçura que carregam, pedir que conduzam o facho da corrida olímpica e o andor da nossa procissão.

Vendo essa moçada, desconsidero meias ou terceiras idades, para pensar melhor em Agostinho. Pois ele – que foi lobo e coruja – entendeu as sete idades do homem, em paralelo à idade do mundo: seis de atividades – da infância à senectude – e a sétima, de repouso e realização interior, o descanso após a criação.

Os ancestrais sabiam de tudo: 40 é o número da purgação, da expiação. Foram 40 os dias do dilúvio e 40 os de Moisés no Sinai e de Cristo no deserto; 40 anos dos judeus em busca da Terra Prometida; 40 dias da Quaresma; quarentena da mulher após o parto, dos enfermos de doenças infecciosas. Na vida, 40 anos para começar a aprender. E, depois, viver. Bom dia.

 

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