Coragem de ter medo

Há muitos anos, acolhi uma criança. Ela tinha apenas quatro anos. E melhor seria dizer que a recolhi, pois o menino vinha das ruas. Trazia o pânico no olhar. E o corpo, marcado por pancadas. O seu não era choro, mas gritos desesperados, não querendo ficar e, ao mesmo tempo, recusando-se a voltar. Qual fosse a sua decisão, era o desconhecido à sua espreita: o de minha casa ou, novamente, o desconhecido das ruas impiedosas.

Taças e taças de sorvete conseguiram acalmá-lo, como se uma réstia de confiança lhe viesse a partir da guloseima. Comia como um animalzinho e, a pouco e pouco, concordou em lhe darmos banho, limpando-lhe o corpinho da sujeira acumulada nas calçadas e nos porões. Quando lhe abri o chuveiro, a criança deu um grito, como se os céus se tivessem aberto acima de sua cabeça e uma chuva diferente o molhasse, certamente como temporais e garoas o haviam molhado antes. Naquele momento, como que entendi o pavor do homem primitivo nas cavernas, vendo relâmpagos nos céus, trovões rimbombando, a chuva caindo sem que nada consiga detê-la. O medo da criança nada mais era do que o atávico medo do ser humano.

Na Faculdade de Direito, discutíamos, no raiar dos 1960, o medo do homem, essa nossa fragilidade ancestral diante do que não conhecemos, das forças cósmicas, do mistério, do que foge ao nosso controle. Vinha-nos, então, de Sartre – o filósofo que apaixonou gerações de jovens intelectuais – a afirmação clara, objetiva, honesta, posta em “A Náusea”, a de que “todos os homens têm medo, todos.” E que não é normal quem não o tenha.

Apenas os loucos são destemidos a ponto de ignorar as inseguranças, o desconhecido, a violência. Basta lembrar a simbologia de Ícaro, voando, sem medo e com asas pregadas com cera, em direção ao Sol. Na loucura, não imaginou a cera derretesse, tornando inúteis, tolas e falsas as asas de um homem. A fantasia não significa coragem. Nem a fanfarronice. Da mesma forma como o medo não tem o significado de covardia.

A reflexão, faço-a a partir do e-mail de um jovem leitor que, dizendo-se mergulhado na batalha da competição do cotidiano, não entende que se tenha medo, como se o medo fosse o fracasso, a covardia, a desistência. Não é. Medo é a sobrevivência do homem. Sem ele, o ser humano teria perecido ao sair da caverna. O medo criou a tecnologia, desde a primeira sandália para proteger os pés; o couro e a pele do animal, para agasalhar o corpo; o fogo, a roda, o machado, a carriola. E o medo criou a bomba atômica. Graça e desgraça, pois, surgem do medo. Mas é esse o homem, na sua grandeza e na sua pequenez.

Portanto, pode ser, também, destruidor, o medo; paralisante, bloqueador. É desafio que nos vem das origens: de medo, sobrevive-se; por medo, morre-se. Talvez, o segredo de tudo esteja num aprendizado difícil, árduo, longo que consiga desfazer a ambigüidade ou assimilá-la. O medo é emoção. Não se teme o prazeroso, mas tem-se medo do que dói. É como se o homem estivesse, em cada momento, diante da vida e diante da morte. Não há covardia em temer a morte. Mas pode ser covarde quem tem medo da vida.

Talvez, falte-nos, primeiro, a coragem de ter e de assumir o medo. E, depois, a de enfrentá-lo. A outra resposta é a dos loucos, que nada temem. Bom dia.

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