A queda

Não há, creio eu, quem já não tivesse o desesperador pesadelo de cair do alto de um prédio, do pico da montanha, de um vôo sem asas. Deve ser, sei lá, complexo de Ícaro, mas tenho certeza de não existir quem escapou ao sonho de despencar das alturas, a angústia da queda, a falta de ar. E o despertar agoniado, o coração galopante, suores frios – feliz por ter acordado.

Dizia-se, antigamente, que pesadelos aconteciam se, antes de dormir, se comesse alimento indigesto. Pelo menos, era coisa de turcaiada, proibindo filhos de comer quibe antes de se deitar. Ou chancriche – não sei se é assim que se escreve o nome daquele queijo fedorento mas de sabor inigualável.

Todos nós, acredito, já tivemos o pesadelo de despencar do alto e no vazio. Mas e cair da cama de verdade? Cair de se estatelar no chão? Ora, crianças caem, tanto que, para elas, há caminhas com grades protetoras. Mas marmanjo, adulto, idoso metido a atleta cair da cama, ficar estirado no chão? E, pior ainda, na condição – não digo obscena mas pouco elegante – de como veio ao mundo, nuzinho da silva?

Caí da cama numa quarta feira de cinzas. E demorei para acreditar, não fossem as dores no corpo em todo o lado direito, quase disse no lumbago, mas não sei, até hoje, o que é lumbago. Não bebi, não tive pesadelos, não uso drogas, não fui ao Carnaval, até deixei de fumar e já faz tempo. Simplesmente, eu dormia, um sono pacífico, sereno, de homem em paz com a sua consciência, com o mundo e com a vida. E por que a humilhação de cair da cama justamente numa quarta-feira de Carnaval?

Já aconteceu faz tempo, mas ainda me lembro da cena por assim dizer singela, o sonho bom: de tão sereno, eu boiava num lago plácido. Devo, sei lá, ter dado umas braçadas, não havia mais espaço, a água sumiu, a cama encurtou e – pum, blá, plaf! – lá estava eu estatelado no chão. E abobalhado. Sem óculos e no escuro, não enxergava nada. Quebrei o copo d´água e tudo ficou molhado, incluindo as tais minhas partes pudendas nuas. Agoniei-me: seria a água do copo, seria outra coisa? Mas era a água do copo, pois eu ainda era e estava casado e minha mulher apareceu, gritando: “O que aconteceu? Cuidado, só tem caco de vidro no chão, não se vire.”

Estupidamente, fiquei estirado, obediente. Lembrei-me, então, de que todos se riem de quem leva um tombo. E um medo terrível cresceu-me no peito: e se minha mulher e o filho se rissem de mim? Pois aquele era tombo de um velhote que, dormindo como Adão no paraíso, se estatelara no chão. Pensei: “Se essa desgraçada rir-se de mim, eu mato ela.” E meus óculos, que ninguém se lembrava de procurá-los? Percebi-me igualzinho àquele infeliz que Cristo descreveu: “estava nu e não me vestiste; estava cego e não me deste os óculos.” A vida é cruel.

Minha então mulher quis dar a mão, ajudando-me a levantar. Dar a mão, que diabo é esse? Era o que faltava: cair da cama e ser tratado como inválido. Nada disso, até a minha nudez era a dos heróis: atenienses não corriam nus nas Olimpíadas? E Charlton Heston, dormindo nu, fosse Ben Hur, fosse Moisés?. E Kirk Douglas, em “Spartacus”? E Davi, que dançava nu? E Marilyn Monroe, dormindo apenas com “Chanel 5”? Lá estava eu, no chão, mas com “Acqua Brasilis”. Quis reagir, atlético, lépido, sem pudores. Não consegui. Tudo eram dores.

Reconheci a ridícula fragilidade humana: cair da cama é nivelar-se a uma formiga. Mas reagi. Pensei nos sábios: “do limão, faça uma limonada.” Tomei do meu roupão, fui até o jardim. Recompus-me, fiz ares de Cary Grant, fingi estar vestido com um “rôbe-de-chambre” de seda. E fumei um cigarro imaginário, com um piteira prateada. Senti-me olímpico. E entendi que, até na desmoralização, é preciso inventar. Bom dia.

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