A corrida da vida

Esse texto foi publicado originalmente em setembro de 1988 no semanário impresso A Província. Recuperamos para marcar os 30 anos de atuação em Piracicaba

A vida é uma curtição, um privilégio de que apenas poucos se dão conta. E eu sou de tal forma apaixonado pela vida que tenho absoluta certeza de que eu quis nascer, naquela alucinada corrida dos espermatozoides, que, quando Deus deu o sinal de partida, dispararam em direção à liberdade de seu cativeiro no infinito: um útero de mulher. Que pena do espermatozoide que ficou em segundo lugar. Não nasceu, coitadinho.

Por isso a vida é, para mim, um direito que conquistei. Logo, tenho totais e amplos direitos sobre ela. E tenho tanta consciência de que quis nascer, de que lutei para isso, que, se eu não tivesse nascido, estaria até hoje, tentando fazê-lo. E é por isso também que me recuso à ideia da morte como simples fatalidade biológica, essa arbitrariedade, essa violência inominável contra as pessoas.

Morrer tem que ser um ato consciente, uma decisão da própria pessoa – e só deve ocorrer quando a paixão pela vida acaba. Acredito que, com uns 150 a 170 anos, essa minha paixão pela vida possa acabar. Agora, se pessoas com 20 anos perdem qualquer interesse por viver, isso é um problema delas e, no caso, a morte é a única saída. Tenho pena dos que morrem sem ser consultados, isso é uma arbitrariedade, a mais terrível negação de um direito. Se morrer fosse mesmo “vontade de Deus”, esse Deus seria horrível, um ditador cruel e sanguinário.

Para mim, Deus é o senhor da vida, e dá a vida como prêmio e privilégio a quem a deseja. Vejo a imagem de Deus a partir da minha própria imagem de pai. Ora, fui instrumento de vida para os meus filhos, quis que eles participassem dessa grande epopeia. Se Deus ama como um pai ama, então a morte nada tem a ver com Deus.

É um acidente, e será somente fatalidade biológica quando a vontade de morrer de um ser humano for consequência da sua impossibilidade de continuar vivo. Viver, conforme mais se passa o tempo, se torna mais apaixonante, mais plenificador. Quanto mais se tem referências e parâmetros – é a história da própria vida quem os dá -, mais é bom viver. Os olhos são outros para paisagens eternas, e os ouvidos se tornam disponíveis para sons que não tinham sido ouvidos.

O coração, onde se quis plantar carvalhos, fica mais fértil com as simples e belas florezinhas do campo. A vida, quando mais vai se alongando, revela que é loucura querer posse de tantas coisas – pois tudo que existe é para a felicidade do homem, basta estar vivo. A infelicidade é uma burrice humana, uma questão moral e cultural. Escrevo isso por causa de um inesperado reencontro que tive: um almoço com amigos que estão com 70, 80 anos. Saí de lá com uma certeza: eles estão melhores do que antes, a juventude por dentro. Bom dia.

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