Crack e apocalipse

ApocalipseHá um livro – formidável, em meu entender – que fala do desaparecimento de Deus. É esse mesmo o título dele, de um filósofo e teólogo judeu, Richard Elliott Friedman. O autor é desses raros intelectuais que adquirem respeito universal, professor na Universidade da Califórnia, doutor por Harvard e mestre em Oxford e Cambdrige. Um dos seus mais brilhantes livros foi o clássico “Quem escreveu a Bíblia”, coroado com esse extraordinário “Desaparecimento de Deus”, no qual Friedman estabelece paralelos incríveis com o Big Bang, a Cabala, a Bíblia, a física quântica, Nietsche, Freud. A pergunta-chave de Friedman: “Por que Deus, que era conhecido através de milagres e de interações diretas no início da Bíblia, vai, pouco a pouco, tornando-se oculto até deixar os seres humanos inteiramente sozinhos ao final da Bíblia?”

Duas questões instigantes são colocadas considerando-se os nossos tempos confusos, caóticos: teria Deus transferido o controle visível dos acontecimentos para os seres humanos ou fomos nós, humanos, que o tomamos de Deus? Para responder, obviamente, é preciso definir pessoalmente a própria condição: acreditar ou não acreditar em Deus. Quem acreditar, reflita para equacionar a questão. Quem não acreditar não precisa, pois já terá respondido.

Ainda agora, a imprensa noticiou o resultado de dramática e assustadora pesquisa em relação às drogas no Brasil. Quase 4 mil dos mais de 5 mil municípios foram pesquisados. E os números são terríveis: em 98% deles, as drogas, com o crack avançando celeremente, se tornaram preocupação vital. Há como que um suicídio coletivo, a necessidade de adormecer os sentidos e a inteligência, pois o inferno se instalou a partir de um sistema econômico mundial em que o ser humano se transformou em simples mão de obra e em consumidor voraz. Houve a matança dos valores espirituais e o que restou não vale a pena ser conservado.

Até recentemente, eram os profetas, falsos ou verdadeiros, que anunciavam a chegada dos cavaleiros do Apocalipse, as grandes tragédias, prevendo horrores, terrores, catástrofes, calamidades sem fim, a desordem social e moral. Agora, não há mais necessidade deles, pois os meios de comunicação assumiram o comando do anuncio apocalíptico, porta-vozes insistentes e cada vez mais especilizados em divulgar, promover, anunciar e disseminar toda a dimensão da miséria humana. Jovens solteiros já se questionam quanto ao casamento e à formação de novas famílias, não sabendo para que ter filhos, a não ser para lançá-los nesse inferno que nem o próprio Dante descreveu com tantos detalhes quanto os meios de comunicação o fazem, soterrando o que ainda existe de bem e de bom, de belo e de honrado.

Prefeitos de todo o Brasil estão apalermados por não saberem o que fazer com a degradação social, com a disseminação das drogas, com a devastação moral que assassinam as cidades e as gentes. Mas não percebem que as administrações públicas estão mais voltadas a obras físicas, de caráter puramente econômico, sem se voltar para a dimensão social das comunidades, que, necessariamente, implica a ordem espiritual. Basta sair pelas ruas da cidade e ver quantas verdadeiras arapucas espirituais estão sendo armadas, com o título de igrejas, seitas, ou o que o valha. Qualquer garagem se transforma em templo; qualquer espertalhão se faz de pastor. Pois há um mercado imenso de almas sofridas, perplexas, desnorteadas, sem destino, que se entregam a quem lhes acena com alguma forma de esperança, mesmo que sejam charlatães.

O incrível é que os meios de comunicação se tornaram os grandes profetas do apocalipse que chegou e, no entanto, nada fazem para indicar caminhos, para discutir situações, para estimular lideranças e o próprio povo a encontrar novos caminhos. Se 98% das cidades brasileiras estão desesperadas diante do domínio do crack e das drogas, o fim do mundo já chegou, ora bolas. E como mostra Friedman em seu livro, o desaparecimento de Deus significou que Ele entregou a sua obra para que a humanidade a completasse. Estragamos tudo. Pode acontecer que a cólera bíblica, do Velho Testamento, retorne. Por que não? Bom dia.

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