A minha religião

Esse texto foi publicado em outubro de 1988 no semanário impresso A Província. Reproduzimos para marcar os 30 anos de atuação em Piracicaba.

A Bíblia é, da meia dúzia de livros que li ao longo de minha vida, o que mais ensina. Sou apaixonado por ela, ainda que não a carregue debaixo dos braços, ainda que não mais me alinhe — nem mesmo para efeito das consultas do IBGE — como seguidor de qualquer religião. Respeito todas as religiões, tenho profunda admiração por aqueles que as seguem — mas estou vivendo uma experiência pessoal religiosa fantástica e inebriante, que nada tem a ver com qualquer religião institucional.

Nunca me senti tão religioso e tão próximo de Deus, como nesse meu afastamento de todo e qualquer vínculo religioso institucional. Por batismo, sou católico. Depois, por conversão, tornei-me cristão, mas me vi novamente transformado em católico. Aceitei o rótulo, pois eu acreditava no Cristianismo e, por isso mesmo, nada vi de mal ou de prejudicial que, como cristão, o meu rótulo fosse o de católico.

Acreditei muito em tudo aquilo, fui um apaixonado, vivi a paixão do homem convertido. De repente, dentro da Igreja, eu me vi na mesma situação em que me havia encontrado quando estava dentro do Partido Comunista, o velho PCB do então quixotesco Luiz Carlos Prestes: um escravo. Acho que não estarei cometendo nenhuma heresia ou nenhuma violência lógica se afirmar aquilo que senti e que vivi: Marx está para o Partido Comunista da mesma forma como Cristo está para a Igreja, guardadas as proporções.

Ou seja: o PCB e a Igreja, diante de Marx e de Cristo, são mais realistas do que o rei. Isso não é doutrina, nem crítica, nem protesto — mas apenas a minha opinião, resultado de uma experiência pessoal. Nem mesmo digo que estou certo ou que estou errado, pois tudo pode se resumir numa simples questão de expectativas, ou seja: eu posso ter criado, tanto dentro do PCB quanto dentro da Igreja, expectativas que as duas instituições não me propiciaram na prática.

Assim, a culpa não seria nem do PCB e nem da Igreja, pois eles dão o que têm a dar, eu é que exigi demais deles. Logo, a culpa é minha. De qualquer maneira, posso testemunhar que o PCB e a Igreja são maravilhosos, desde que as pessoas se contentem com o abrigo, com as respostas, com as doutrinas, com os dogmas e com as propostas que eles têm a oferecer. Fica quem quer.

Eu caí fora, depois de muitos e muitos anos de militância, todos os anos de minha juventude. O errado fui eu, que desejei muito mais do que instituições podem dar. Quem ama o mundo e a vida infinitamente não pode pretender que instituições lhe dê respostas infinitas, pois as instituições têm regras e códigos, têm limites portanto. Quem ama infinitamente a vida e o mundo tem que ir em busca do infinito, que é o mistério e o segredo a ser descoberto.

Ficar não preciso, buscar é preciso. As instituições aprisionam, a anarquia libera. E é por isso que eu amo a Bíblia, por seu caráter anárquico, pela possibilidade que dá de qualquer pessoa interpretá-la e vivê-la conforme o que lhe convém, conforme a circunstância ou a necessidade. A Bíblia tem resposta para tudo, a favor ou contra, para justificar ou para condenar. Com a Bíblia na mão, um homem é capaz de tudo, tem resposta para tudo, pode ser católico ou protestante, batista ou genericamente evangélico, anglicano, luterano, presbiteriano, metodista, mórmon, do Sétimo Dia, carismático, pentecostal, ortodoxo, do Tai Shi, do Kung Fu, do jiu-jitsu, do escambal.

A Bíblia justifica. E é a Bíblia para mim, o livro, da meia dúzia de livros que li, o que mais me ensina, o que mais me é útil, o que mais me dá subsídios para justificar ou para condenar pessoas. Até para a cervejinha boêmia a Bíblia serve. Há poucos dias, um amigo crente me chamou a atenção Disse-me, piedoso: “ Você está pecando contra o seu próprio corpo com o seu cigarro e a sua cervejinha. O Corpo, está na Bíblia, é templo vivo do Espirito de Deus. A cervejinha mata o templo vivo do Espírito de Deus”. Ele, segundo a sua visão da Bíblia, está certo. Mas, como eu leio a Bíblia, taquei-lhe, como resposta: “Está lá no Ecle siastes: comei, bebei, diverti-vos”. E ofereci-lhe um copo. Ele se recusou a beber, em nome da Bíblia. E eu, em nome da Bíblia, bebia alegre e santamente. Bom dia.

 

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