Delícias juninas

Festa de Santo Antônio já se foi, multidões comendo o bolo do santo. Agora, virá São João, o santo dos fogaréus, dos fogueteiros e, segundo o pessoal do candomblé, o valente Xangô. Depois, São Pedro, mais festas e mais alegrias. No Brasil inteiro. Ninguém foge a eles. Nem dele. Onde houver gente, lá está o santo com as pessoas, uma intimidade comovedora. São carne e unha, devotos e os santos. Com Santo Antônio, especialmente, é tanta a intimidade que ele nem se importa se o colocam de cabeça para baixo, se lhe roubam o Menino ao colo, se o escondem dentro do poço. Apesar de tantas más-criações, ele continua milagreiro.

Há alguns anos, passeando por Serra Negra, vi antonina, onde não pensei Santo Antônio pudesse estar. E estava. Todo poderoso. Com direito a procissão, quermesse, pão e bolo. A igreja, consagrada à Senhora do Rosário, era toda dele, como se a dona não existisse. Deve ser trica e futrica antiga, como a de Piracicaba, onde Santo Antônio e a Senhora dos Prazeres despertaram rixas no início da povoação. Mas essa é encrenca que já se apaziguou.

O fato é que, se não faz milagre, o santo provoca coisas estranhas. Sei lá, pois algo aconteceu. Começou por, ainda hoje, eu não entender o porquê de ter ido, eu, a Serra Negra, pois não gosto de frio e de estâncias, praieiro que sou, de sol, mar, areia. Sei que fui, que estava lá. E, mal andei alguns quarteirões pela cidade, tive uma atordoação estranha, diferente. Evitei pensar na pressão arterial, problema crônico. Mas a atordoação aumentou. Quis ir à farmácia do João Sachs, mas me lembrei que ele não tem farmácia em Serra Negra. Entrei na primeira que encontrei. Imaginei, estendendo o braço: “19 por 12”. Seria quase o corriqueiro.

O velho farmacêutico, sorriu, cumprimentou-me: “Pressão de garoto: 12 por 7.” Não achei graça. Pedi-lhe me dissesse a verdade, pois, conforme o caso, precisaria medicar-me. Ele insistiu: “12 por 7.” Pensei, de novo, no João Sachs, no aparelho de medir pressão, cujo nome não sei. Um deles tinha que estar com defeito, o do João, ou o do sorridente dono da botica. Pedi-lhe medisse novamente. Gentil, fê-lo, voltou a sorrir: “É isso mesmo, de criança: 12 por 7.” Entendi: velho com pressão de criança fica bobalhão. Fiquei.

Se não era coisa de Santo Antônio, fiz de conta. Pois, atordoado, deslumbrei-me com a quermesse. Cadê a menina do correio-elegante, cadê? E o homem do realejo para tirar sorte? Não encontrei. Mas tinha argolas, sete argolas por dois reais. Quem acertasse levava o brinde: um coelho de pelúcia, dos grandalhões, que velho com pressão de criança tem o direito de abraçar. Tentei ganhar o coelho, lancei catorze argolas, errei todas elas. A banda começou a tocar. O povo aplaudiu e eu bati palmas também.

Pensei no Lula. Por que não convidar Santo Antônio para Ministro da Educação ou da Saúde, pastas que não funcionam? Ora, o santo já teve cargos os mais honrosos: capitão na Bahia, coronel em São Paulo, tenente em Recife, vereador em Pernambuco. Por que não ministro de Lula? Pois, nas barracas da quermesse, havia o milagre dos preços: óculos por cinco reais; relógios, por três; um saca-rolhas formidável por dois. E – não sei da qualidade, pois seria chato manusear – uma barraca onde, com 10 reais, mulher comprava meia-dúzia de peças íntimas: três sutiãs, três calcinhas; quatro calcinhas, dois sutiãs, por aí.

Pensei, então, nos meus caros amigos, os mais chegados, os que se lamentam na Rua do Porto. Pensei, em especial, no Cerinha, no Greg Marchiori. . Foi numa barraca de ervas. Tinha de tudo: um saquinho de 18 ervas, kit completo, revitalizante e para emagrecer. Erva para varizes, micose, queda de cabelos. Ah! e, por dois reais, um saquinho de artemísia, que o índio garantiu ser afrodisíaco e muito usado pelo “pessoal da Globo”. Mas – advertiu – pelo sim, pelo não, seria bom levar, com a artemísia, umas duas miniaturas de Santo Antônio. “O santo é forte.” – explicou.

Pareceu-me, no entanto, ter, o índio, delicadamente, insinuado que, em certos casos, só milagre resolve. Bom dia.

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