Saudade de Gijo no desencanto

picture (41)Uma das mais belas e inesquecíveis das muitas lições que aprendi da vida, foi-me, ela, dada por um homem de alma inocente, o Gijo Furlan. Ele e Cobrinha, cada qual a seu modo, eram íntimos dos céus. Pois eles pareciam enxergar não com olhos humanos, mas com os de anjos. Gijo, funcionário municipal, andava pela cidade como se a sobrevoasse. Não existiu quem não o tivesse amado.

Quando o homem chegou à Lua, houve, no mundo, um misto de júbilo e de apreensão. O russo Gagarin, poucos anos antes, nos avisara, olhando-nos das alturas espaciais: “A Terra é azul.” Em julho de 1969, o astronauta Neil Armstrong tornou-se o primeiro ser humano a chegar à Lua. Fincando a bandeira dos Estados Unidos em solo lunar, avisou gelidamente: “A Águia pousou.”

Lendo a notícia, Gijo Furlan chegou à redação de “O Diário” tomado de fúria santa: “Vocês são mentirosos. O homem não chegou à Lua, nunca chegará. Só Deus é capaz disso.” Gijo morreu sem acreditar que, na Lua, o sonho ou a loucura do homem acontecera. Com as palavras dele ressoando-me na alma, compreendi que, além do fantástico feito, era o fim de um tempo. Cadê a Lua dos poetas? E a dos amantes? E São Jorge e o dragão?

A ciência humana é capaz de assombros. Mas é também ela que desencanta o mundo. Se a razão explica, o mistério desaparece. E acaba também o sonho. E a beleza da própria fé, essa virtude humana que mantém a esperança até mesmo diante do desespero. Pois o que é a fé senão esse acreditar nas coisas antes de a razão entender, apreender? Apenas uma pessoa de fé é capaz de amar em plenitude. Pois o amor também é isso: crer naquilo que se sente, sem saber o que é.

Ora, estamos ainda discutindo a respeito do uso de preservativos e de contraceptivos, diante do rigor moral da Igreja. Isso deveria ser, penso eu, questão do interesse apenas dos católicos realmente fiéis, gente forte. Nós outros – menos fiéis e menos virtuosos – sabemos onde é que nos dói o calo e até onde podemos suportar, que se há de fazer? De minha parte, a angústia maior está em perceber o galope acelerado do desencantamento do mundo. Gijo faz falta.

A ciência não roubou apenas a Lua ao homem. Começa a roubar-nos o amor até mesmo como dom humano. De um lado, igrejas transformando-o em questão religiosa e moral; de outro, a ciência, simplificando-o. Já temos bancos de esperma, bebês de proveta, barrigas de aluguel, clonagem de seres vivos. E, agora, eis cientistas anunciando: o amor é apenas questão química e pode ser um vício como cocaína ou chocolate. Isso, pelo menos, confirmaria a embriaguez causada pelo “filtro do amor” em Tristão e Isolda. Neles, a droga do amor funcionou.

Se a ciência estiver certa, a história é menos encantadora, quase banal, por tratar-se de mecanismos biológicos. As relações amorosas seriam regidas por três circuitos distintos do cérebro um dos quais é explosivo: o que produz descargas de dopamina, que viciam como chocolate ou cocaína. Assim, os amantes seriam viciados em amor. E desamados, os com dopamina baixa. Prevê-se, também, uma vacina para atenuar o fogo dos viciados ou que incendeie gente com fogo baixo. Como com cigarro, chocolate, bebida – para viciar no amor é só começar, como coçar ou trair, ora veja.

Que, porém, malandro não cante vitória antes do tempo: “não sou pecador, sou um viciado.” Pois deve ter gente com a resposta na ponta da língua: “Se amar é que nem comer chocolate, o pecado só muda de nome: a luxúria se torna gula.” Não tem saída. Pois gulosos também vão para o inferno. Bom dia.

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