Delinqüentes? É simples: matem

picture (33)Já ouço, novamente, o simplismo dos que se dizem cansados deste país, cansados naquilo que lhes interessa. Diante da revelação de que adolescentes cometeram outro crime bárbaro – estuprando e matando uma jovem estudante, crime hediondo – repetem-se as mesma cantilenas lamuriosas e apenas cíclicas: mudar a lei para punir menores com o rigor com que punem adultos, desde que, é óbvio, ainda pertençam aos 3 Pês: pobre, preto, puta.

No longínquo 1751, Diderot e D´Alembert publicaram o primeiro volume da “Encyclopédie”. E, na magistral obra que começava a nascer, registrou-se o conceito de homem confome da razão e do conhecimento da época. O verbete homem explicou: “um ser dotado das capacidades de sentir, de refletir e de pensar; (…) é o dominador de todos os outros animais que nela habitam; vive em sociedade; inventou as ciências e as artes; é dotado de uma bondade e de uma maldade que lhe são próprias; proporcionou-se mestres e leis que regulam sua vida.”

Há poucos anos, – sentindo-me perplexo diante da multiplicidade das conquistas científicas – me inscrevi num curso de extensão universitária sobre bioética. Eu me via em busca agoniada de uma definição atual e científica de vida. Ao final do curso, pediram-me resumir o que me fora significativo nas longas horas daquelas semanas. Fui sincero e simples: “não entendi nada, saí mais confuso do que quando entrei e acho que os professores também estão aturdidos.” Decidi há que bastar-me: vida é mistério e milagre. Logo, um bem sagrado.

Ora, são ainda admiráveis as capacidades admiráveis do ser humano de “sentir, refletir e pensar”. Mas as pessoas, cada vez mais dramaticamente, sentem menos. E abdicam de sua capacidade de refletir. E recusam-se ao dom de pensar. Que ser vivo é esse que não sente, não reflete e não pensa? Que permite os sentimentos estejam em telas de televisão, a reflexão na voz de comentaristas e o pensamento, naquilo que outros dizem?

Propor a morte, querer matar, desejar o extermínio – como solução – passa a ser, obviamente, muito mais simples e mais fácil do que criar vida, adubando sementes de vida, aperfeiçoando e criando vida. Isso dá trabalho, exige humanidade, em tempos de absoluta selvageria. É mais fácil fingir que, comprando uma arma, estarei protegido de marginais e bandidos do que ir para as ruas e, coletivamente, exigir e cobrar medidas políticas, lutar por justiça, por educação decente e digna, por mudanças drásticas no imenso fosso entre privilegiados e desprotegidos. É mais fácil enfrentar a infâmia a bala do que com as armas generosas da solidariedade, do comunitarismo, do senso cívico. O egoísmo é mais prático do que a partilha.

Ora, é idiotice propor mudanças no bem estar dos mais poderosos, pois todos merecem vida digna, confortável e segura. No entanto, é infame buscar a solução da violência para os que se tornaram violentos em climas familiares e urbanos de desamor, de abandono e de injustiças. Basta de pedir-se a políticos que decidam as graves questões sociais e institucionais do país. Eles não sabem, não querem e não podem fazê-lo. Os mais conscientes temos que sair do comodismo e do silêncio comprometedor diante de indecências que minam os alicerces do país a partir dos municípios.

As soluções propostas são escandalosamente simplistas. Engravidou? Mate. Bandido? Mate. Mas o homem é, ainda, o “ser dotado das capacidades de sentir, refletir e pensar.” Bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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