Raios e homens

picture (34)Mais uma vez, culpam raios, caídos dos espaços, pelos incêndios que atingem regiões inteiras em diversos países. Começo a acreditar em minha própria teoria de que tragédias vindas da natureza têm, também, causas morais. Os mais humildes e ingênuos dizem de “castigo dos céus”. Prefiro dizer de causas morais: quando o homem desvirtua o ambiente, o mundo em que vive, essa é, primeiramente, uma questão moral. Morte de árvores, por exemplo, significa outras e muitas mortes, pela fome, pelas carências, pela falta.

Certa vez, a partir de reflexões sobre um raio que caíra nos Estados Unidos, lembrei-me de quando ensinei, a um garotinho, a origem do trovão, o porquê de trovões rimbombarem nos céus. Eu lhe falei que era São Pedro arrumando os móveis da casa. Mas a mãe dele, escandalizada, a passou a explicar-lhe questões de eletricidade, de ciência. Ao menino, foi roubado o exercício do sonho.

Em meu colo, a criancinha tremia, assustada com trovões, vendo relâmpagos coruscando o céu. Ensinei-lhe que, rabugento e desocupado, São Pedro inventava mudanças, arrastando guarda-roupas de lá para cá. Mudanças no céu, armários arrastados, eis os trovões. Relâmpagos, raios? Ora, são anjos fazendo festa junina num canto do céu, com rojões e busca-pés. Raios e relâmpagos podem ser balé de vaga-lumes. Ou estrelas dançando ciranda-cirandinha. Contei coisas de pajé. E o menino acreditou em mim e teve pena da mãe, que não sabia nada das coisas…

Quanto menos sabe, mais o homem acredita em Deus, nos deuses. Acho que Deus nasce do medo do inferno. Inferno, a própria palavra explica: aquilo que está lá embaixo, profundezas, calabouços escuros. Deus e deuses estão nos céus: na Lua, no Sol, nas estrelas. E nos relâmpagos, nos raios, nos trovões. Deus Sol, Deus Lua, Deus Trovão. E o Deus Fogo, na Terra.

Deuses com jeito de gente, acho que os homens os inventamos apenas ao deixar a caverna, quando aprendemos algumas coisas, entendemos outras. Naquelas sombras de Platão, estão nossa história, o início dela. As sombras vistas da caverna contam tudo. De tanto desvendar sombras, fomos trocando a multidão de deuses por alguns poucos, até que ficamos com apenas um. Agora, chegamos à encruzilhada: ou ficamos sem nenhum ou voltamos a ter muitos. Todos, novamente.

Governos tentam dizer sejam raios, forças ocultas da natureza, tsunamis por tantas tragédias. No entanto, à medida que acontecem, os homens, de suas cavernas em todas as partes do mundo, enxergam as mais terríveis sombras, o medo de fantasmas, de demônios. E, às vezes, não passa de um raio, de apenas um raio, mas poderoso o suficiente para ser visto como um dardo lançado pela fúria de Deus – ou saído do pincel de Michelângelo – num castigo que, atingindo usinas feitas pelo homem, anuncia o território das sombras, a escuridão, profundezas do inferno.

Brincando de Deus, os Estados Unidos iluminam o mundo com bombas, relâmpagos destruidores, como aquela luz bíblica que cegava quem a olhasse. Foi assim em Hiroshima, o raio enviado pelo deus de Washington. Continua sendo em todo o mundo, para delírio da CNN que, ao vivo e em cores, mostra a chuva de raios, tempestades de fogo no deserto, matanças de homens, mulheres e crianças. E, agora, um raio, um único e prosaico raio – desses que assustavam o menino sentado em meu colo – faz Golias tremer.

Raios, porém, são sinais. Vendo-os, pela primeira vez, riscando os céus e ouvindo trovões, sabemos ter sido quando nosso ancestral gerador inventou Deus. Ou descobriu. Talvez – quem sabe? – possa, esse raio providencial, levar Mr.Bush a olhar-se no espelho mágico e, enfim, perguntar-se: ” Quem é mais poderoso do que eu?” E o espelho mágico dirá que, mais forte do que a arrogância humana, é um raio, apenas um. Desses que anjos traquinas deixam cair, enquanto brincam de cirandinha no quintal dos céus. Bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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