O lado de beijar

Rendo graças por, hoje, não ter filhos adolescentes ou crianças. Penso não saber o que faria com eles, como orientá-los. Tenho certeza apenas de uma ou de outra coisa. De uma delas, a principal: mais, muito mais do que fiz antes, eu insistiria que filho meu cultivasse e cultuasse a alegria de viver, no mundo e diante da própria vida. E uma outra certeza: não estimularia, não, filho a ingressar em universidade, a menos que ele tivesse muito, muito talento e vocação para isso. Pois, a cada dia que passa, aguçam-se mais os meus questionamentos em relação a certo conhecimento acadêmico. A fome de saber é, penso eu, insaciável para se esgotar em especializações. Por isso ser jornalista é bom: fica-se especialista em generalidades.

Há umas três décadas, sobressaltei-me quando um amigo me falou que iria ficar alguns anos no exterior para doutorar-se. Ele ia especializar-se em cocô de bicho, não me lembro mais se de cabra, de boi, de galinha. Mas era cocô. Assustei-me: ele iria ficar aqueles anos todos e com tanto sacrifício e pesquisa e lutas para se tornar um “doutor em cocô”. Era assim. E, com a exigência de mestrados e de doutorados, as pesquisas são quase que inacreditáveis, tanto pelas descobertas extraordinárias quanto pelas inúteis. Há até pesquisas que pesquisam o que as pesquisas pesquisam. O futuro haverá de rir-se de nós da mesma forma como rimos das questões bizantinas, de discussões sobre sexo de anjos ou quantos deles caberiam numa cabeça de alfinete.

É óbvio que há notáveis e admiráveis conquistas científicas e pesquisas em universidades. Mas estou querendo refletir sobre o que parece, pelo menos, esquisito. Por exemplo, saiu na internet: “Um pesquisador alemão, que observou mais de 120 casais se beijando, descobriu que o número de pessoas que dobra a cabeça para a direita é duas vezes maior do que aquelas que viram para a esquerda.” O nome do cientista é Onur Güntürkün, da Universidade de Rühr, na Alemanha. E, com refinamento artístico, a informação foi ilustrada com a gravura do “O Beijo”, de Rodin. Lá está o casal beijando-se com os pescoços entortados para a direita. E essa notável descoberta do dr.Onur foi comprovada com casais da Alemanha, Turquia, Estados Unidos, dos 14 aos 70 anos. Logo está tudo correto e acertado e comprovado: homem e mulher, quando se beijam, entortam o pescoço para a direita. Formidável.

i e veio-me a dúvida inquietante: seria, mesmo, pela direita que se torce o pescoço? Estando sozinho, fiquei pensando em para onde viro o meu. Não deu certo. Atrapalhei-me de lado. Pensei em espelho, nem tentei, pois me lembrei de que espelho inverte as imagens e isso, para mim, é muito confuso. Mas ainda tenho a impressão de que o lado de virar o pescoço depende. Da posição, do lugar, dos parceiros. Sei lá. Preciso testar por aí. Em nome da ciência.

Por não compreender esses intricados acadêmicos, continuo, admirável e gloriosamente, enriquecendo a outra cultura inútil. Não sei se minha turminha já sabe, mas eu descobri: por que o computador causa o tal do LER em mãos e braços das pessoas e a máquina de escrever não causava? Elementar, meu caro Watson. Está na revista de informações rápidas: na máquina de escrever, o datilógrafo tira e põe papel, mexe no rolo, não fica somente com o mesmo e repetido movimento como no computador. Eis o valor da ciência. Falô? É isso aí. E bom dia.

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