Dovílio, enfim, com as estrelas

picture (16)Conheci Dovílio Ometto pouco antes dos meus 20 anos. Foi à porta do “Diário de Piracicaba”, então na Rua Prudente de Moraes e dirigido por Sebastião Ferraz. Não sei se ele e João Chiarini estavam voltando da casa de Mário Dedini, na Rua Santo Antônio, rua onde também Chiarini morava. Aproximando-se do “Diário”, Chiarini me chamou, apresentando-me àquele homem ainda jovem, atlético. “Este é o Dovílio Ometto, o primeiro capitalista socialista do Brasil.” – falou João. E, de mim: “Este é o mais novo membro do Partido Comunista, levado por minhas mãos.”

Os tempos, em Piracicaba, sempre foram especiais. Aqui, árabes e judeus tornaram-se sócios em empreendimentos comerciais, comunistas e capitalistas confraternizavam-se, homens da elite tornaram-se líderes populares, padres foram maçons, maçons eram de comunhão diária. Sem que Dovílio o contestasse, João Chiarini definia-o como “capitalista na razão e socialista no coração.” Referia-se à sensibilidade social de Dovílio Ometto, que até na política ingressara, sendo vereador para inconformação de amigos e familiares.

Rico, poderoso – tendo conhecido a saga dos Ometto desde o pequenino e primeiro sítio na Água Santa, entre Piracicaba e Limeira – Dovílio nunca se esqueceu de suas origens, como podem atestá-lo todos os que tiveram o privilégio de, alguma forma, privar de sua intimidade. No mais fundo de si mesmo, era um tímido. Que vivia uma profunda contradição pessoal: grande empresário, tinha a razão capitalista; cidadão, o coração comunitário; pessoa humana, carregava uma profunda e sensível alma poética. E é essa alma feita de delicadezas que muito poucas pessoas puderam conhecer.

Dovílio Ometto, pois, foi uma admirável e generosa contradição, somente possível de acontecer com tanta harmonia a partir dos princípios plantados por Pedro e Caterina Ometto. De simples colonos, tornaram-se forjadores de um império, construindo um monumento empresarial que, com seus descendentes, ultrapassou as fronteiras nacionais. Até chegar-lhe a avançada idade, Dovílio se lembrava, com saudade, da “polenta de Caterina, virada no panaro”, um tabuleiro de tábua onde se cortavam as fatias.

Ainda há poucos dias, divulgando uma foto antiga de Piracicaba, mostrávamos os agradecimentos que a população fazia a Dovílio Ometto ainda nos anos 1950, por sua contribuição aos esportes, em especial ao basquetebol. Esportista, atleta, Dovílio participava dos jogos, dos eventos, unindo-se aos atletas nas quadras e ao povo, nas arquibancadas. Agrônomo, sua paixão pela ESALQ foi permanente e não me esqueço das discussões acaloradas entre ele e Romeu Rípoli, contemporâneos na Escola, sobre lembranças estudantis. Dovílio deixava transparecer um humanismo que, uma noite, revelou a dimensão que nos era desconhecida: uma visão poética de vida, de mundo, de universo.

Naquela noite, sob um imenso céu estrelado, conversa entre poucos amigos, Dovílio fixou os olhos no céu e ficou como que imantado, o pensamento distante, silencioso. Depois de algum tempo, como que retornando ao banal das conversas, confidenciou: “Meu grande sonho na vida foi o de ser astrônomo. Ainda é.” E completou: “Desvendar o mistério profundo das estrelas…”

O capitalista/socialista, o racionalista/emotivo, empresário/poeta, um homem todo poderoso que manteve, até o fim, a mais bela virtude do ser humano: a humildade. É impossível falar de apenas um Dovílio Ometto. E nem é hora disso, nesse momento de adeus. Cada qual ficará com a imagem inesquecível. A minha é dessa alma de poeta, do Dovílio olhando o céu constelado. Hoje, ele realizou seu sonho. Está entre as estrelas. E bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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