Ignês, a borralheira

Com a morte de Ignês Seghessi, viúva de Mário Dedini, estou entre os que lamentam o desaparecimento de uma mulher que, de origens profundamente humildes, se tornou uma das mais refinadas damas de Piracicaba. E, além do mais, tenho outra perda a lamentar, pois há apenas alguns dias mantive contato com a família, solicitando Ignês Seghessi me desse uma entrevista pessoal, muito pessoal. Pois estou pretendendo registrar, para conhecimento das novas gerações, a grandeza de Mário Dedini como pessoa humana, pois quase todos o enaltecem mais por sua visão de empresário, por sua exemplar carreira, o visionário, o homem que foi considerado “contemporâneo da posteridade”. E o homem, a grande humanidade de Mario Dedini?

Estou pretendendo, querendo mais. Pois, tendo conhecido Mário Dedini pessoalmente e com alguma proximidade, sinto que falta, às novas gerações, conhecer a pessoa humana de Seo Mário, o homem, o pai, o marido, o amante, o avõ, o amigo. O primeiro a me dar um depoimento foi Tarcísio Mascarim, que viveu toda uma vida junto aos Dedini e Ometto. E a segunda pessoa seria Ignês Seghessi, a quem pedi discorresse sobre o marido que ela amou. O tema seria: “Mário Dedini, meu homem.” Ignês Seghessi, soube disso ontem, havia aceitado. Mas morreu antes de nosso encontro.

No velório dela, lembrei-me de episódios, de cenas que me acompanham desde a juventude. Ignês, irmã de minha tia Nida Elias – viúva de meu tio Toninho, inesquecível – tornara-se a terceira mulher de Mário Dedini, que enviuvara da primeira e se separara da segunda. A casa de meus tios, na rua Tiradentes, ficava nos altos, uma grande escadaria. Certa noite, passando por lá, ouvi meus tios, meus pais conversando alegremente, Mário Dedini e Ignês rindo, felizes. E todos eles, sentados na escada, a porta aberta, a cidade risonha e serena. O homem Mário Dedini era aquele.

Alguns anos antes – e eu, mal saído da adolescência – João Chiarini me procurou na casa de meus pais. E me avisou de sopetão: “Vim buscar você. Seo Mário está convidando-o para almoçar com ele e dona Ignês.” Tremi, ainda mais acentuada a minha timidez patológica. Mas convidado por Seo Mário e Dona Ignês, por quê? E Chiarini, todo feliz, me comunicou: “O convidado de honra deles é o Embaixador Paschoal Carlos Magno e seo Mário quer que você o conheça.” Quase desmaiei. Pois Paschoal Carlos Magno, o grande embaixador, era o Mecenas da cultura brasileria, o maior incentivador do teatro nacional, de autores e de atores. Ele criara, numa fazenda antiga, perto do Rio de Janeiro, a Aldeia de Arcozelo, onde se viviam, na época, as mais fantásticas experiências de criação e interpretação dramatúrgicas. E um detalhe formidável, revelador da dimensão de Mário Dedini: Paschoal Carlos Magno era homem de esquerda, ligado a socialistas e comunistas. No fundo, no fundo, penso eu, Mário Dedini – e Dovílio Ometto também – nunca se enquadrou no perfil capitalista. Ele queria fazer, produzir, criar, participar, cosntruir. E amar.

Sei que – naquele almoço – hipnotizado, não abri a boca. Era privilégio demais para um garoto. Bebi cada palavra, comi cada gesto, devorei cada detalhe. E Ignês Seghessi, vendo-me ainda um quase menino entre aqueles grandes, me tratou com tanta lhaneza, atenção e cuidados que me senti príncipe naquela casa. Os gestos de Ignês, as belas mãos dela tirando cachos de uva da grande taça, oferecendo-os aos convidados, sua postura impecável, sua beleza, o amor que seo Mário e ela deixavam transparecer um pelo outro – eis que entendi, na vida real, a história da borralheira que, antes de se tornar princesa, já trazia, do berço, o dom da majestade. E, hoje, não tenho receio de confessar o que me ficou na alma desde aquele dia: Ignês cuidara de mim, como que me introduzindo num mundo que eu imaginava existir, mas que não conhecia. Paschoal Carlos Magno e Mário Dedini, o artista e o industrial, falaram o tempo todo de arte.

Ignês Seghessi realizou, enfim, o seu sonho derradeiro: ir ao encontro do seu homem, de seu marido, do Seo Mário, como ela continuou chamando-o até o fim de sua vida. Mário Dedini foi, para ela, seu homem, seu deus. Ela, para Mário Dedini, foi a mulher e a deusa. Agora, em alguma nuvem do céu, está havendo dias de núpcias. Bom dia.

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