Ela é a “Noiva” e não garota de programa

DSC09340

Perplexo, começo a me questionar com um sabor de angústia: será que meu amor por Piracicaba não é uma fantasia, uma ilusão? Como amante apaixonado, eu não teria – estas décadas todas – imaginado e inventado algo que nunca existiu? E, então, seria, eu, outro criador de uma figura amada? A Piracicaba – “que eu adoro tanto” – nunca existiu? Ou está sendo barbaramente desconstruída?

Alguém me cobrou pelo recolhimento deliberado a que me propus nos últimos anos. Já expliquei de meu desencanto, além de cansaço e enfermidade. São, afinal de contas, 57 anos de jornalismo exercidos nesta nossa terra. Vi, ouvi, soube e sei de coisas de “que até Deus duvida”, no dizer de Dorival Caimmy. Mas respeito a escolha popular. Quando a cidade escolheu reeleger um prefeito insensível por uma maioria esmagadora – mais de 80% dos votos – quem seria, eu, para divergir da vontade popular? A menos que eu pensasse como Pelé – “o povo não sabe votar” – eu teria continuado solitariamente. Mas não penso como ele. Acredito que o povo possa se enganar, mas que sempre poderá rever-se.

Aliás, ainda confio na reflexão atribuída a Abraham Lincoln: “Pode-se enganar a todos por  algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo.”  Nunca tive dúvidas quanto à ascensão do sr.Barjas Negri na política piracicabana. Eu conhecia a sua história, já o havia denunciado ainda no tempo de João Herrmann Neto, adverti – quando ele ressurgiu, preparando sua candidatura – ao pedir cautela dos que o incensavam, carregando o andor, lembrando que  “o santo é de barro”. Na realidade, eu expus minha posição – leal e francamente – ao próprio Barjas Negri quando, pessoalmente, ele me visitou pedindo-me apoio político. Ora, eu não poderia dá-lo – expliquei-lhe – pois ele estava cercado de um grupo de políticos supostamente corruptos. Ele me pediu um voto de confiança, assegurando que saberia fazer o expurgo dos maus companheiros. Não acreditei. E ele não o fez. Mas tentou silenciar-me. E ainda espera por isso.

Piracicaba foi escandalosamente enganada com a falsa ideia de desenvolvimentismo. Foi enganada ou deixou-se, candidamente, enganar. Não percebeu – ou não quis perceber – que se formava uma poderosa aliança entre políticos, empresários e meios de comunicação, incluindo algumas instituições locais. Progresso implica um objetivo ético, caso contrário será visto apenas como crescimento sem fundamentação moral. Qual o objetivo do desenvolvimento proposto: o de melhorar a qualidade de vida da população – em questões básicas como educação, segurança, saúde, transporte – ou o de beneficiar grupos interessados apenas em lucros? Ora, que cada um – olhando para a sua própria realidade, para os amargores da grande maioria da população – dê a sua resposta. Se gostar do que vê e presencia, acabará revelando-se favorável a uma desordem como jamais vimos na história desta cidade e do município. Se não gostar, que tome, então, um posicionamento enquanto ainda não chegamos ao fundo do poço.

Piracicaba é e sempre será a eterna “Noiva da Colina”, a “Noiva” de nosso coração, de nossas esperanças, de nossa história. No entanto – e para desgraça de toda uma cultura singular – ela está sendo tratada como uma garota de programa, de quem se pode usar e abusar conforme os acertos contratados. Já me propus a voltar a latir como cão de guarda de uma comunidade,  dever do jornalismo responsável. Deverei, ainda outra vez, fazê-lo quase solitariamente? Ou não chegou a hora de, realmente, homens e mulheres sérios se manifestarem, protestando e manifestando-se como o faz esse “Reaja Piracicaba”, que vereadores insistem em descaracterizar?

Ninguém engana a todos todo o tempo. A “Noiva” não pode ser estuprada e violentada como pretendem fazer. Até podem atingir-lhe o corpo. Mas a alma piracicabana permanecerá integra. A maldição que chega com certos políticos  – e eles sabem a que me refiro  – não pode cair sobre nossa gente. Que contamine os seus companheiros, mas que poupe a população. Bom dia.

2 comentários

  1. wilhe gerdes em 18/09/2013 às 10:24

    MAIS UM PARABÉNS!.. meu grande amigo.

    Sou extremamente suspeito por ofertar-lhe minha simpatia, mas eu pude presenciar toda essa tentativa imunda desse político imoral em tentar silenciá-lo.
    Por isso, entendo como verdadeira a ideia que a “Noiva” foi tratada como prostituta, pois dela, políticos abusaram feito gigolôs; num sentido figurado, é claro!
    Quanto a voltar a ser um cão de guarda de uma comunidade, acho que você nunca deixou de o ser…
    Pois na verdade, apesar de ficado ‘preso’ no desencanto, cansaço e enfermidade, você sempre foi a brasa acesa a espera de um sopro para dar novos ares aos sentimentos políticos e de cidadania que a nossa querida Noiva da Colina merece. E que ninguém e nem Deus duvide!
    ‘Água mole em pedra dura’… um dia o povo aprende; inclusive a votar.

    Abs.

  2. Bruno em 18/09/2013 às 15:36

    É bom ouvir vozes afinadas com um a ideia de ‘desenvolvimento ético’. É a hora de aprender a diferenciá-lo do crescimento desorientado que Piracicaba tem vivenciado nos últimos anos, e Cecílio Elias Neto sem dúvida é alguém que pode acender a fagulha dessa inquietação,

Deixe um comentário