Entre o jogo e o debate

Debate pelo rádioUm dos melhores testes para me provar de meu enfado definitivo em relação à política e a políticos, passei-o ao não hesitar entre duas opções: assistir ao debate promovido pela Bandeirantes com os candidatos à Presidência, assistir ao jogo entre São Paulo e Internacional. Não houve um momento sequer de dúvida, de hesitação: escolhi ver o jogo, mesmo não torcendo nem para um nem para outro time. Ou melhor: querendo, sem torcer, que o Inter vencesse.

Já confessei o meu encantamento com o controle remoto, uma das invenções mais terapêuticas que penso ter sido criada pelo homem em tempos de telecomunicações. Com o controle, passeia-se pelo mundo sem sair da poltrona. Foi o que fiz: assistia ao jogo e, de quando em quando, via o que estava acontecendo com os candidatos e o debate. Mal via, voltava ao jogo, pleno de emoções, de luta, de coração, de alma, enquanto o debate era aquela mornidão repetitiva de palavras vazias e propostas sem alma.

Admito, porém, certo exagero nisso. Vi alma e calor nas palavras de Marina da Silva e de Plínio de Arruda Sampaio. São, no entanto, coadjuvantes. O velho Plínio, sábio e vivido, tratou Dilma e Serra como a dois aprendizes, embora seu discurso esteja mais envelhecido do que ele próprio. Ora, onde já se viu um senhor idoso, sábio, experiente, com serviços inestimáveis realizados na própria política, viver, ainda, uma proposta utópica, irrealizável ou já provada estar esclerosada? Plínio de Arruda Sampaio é dessas personagens brasileiras que devem ficar num panteão de homens decentes e sua presença seria de vital importância no Congresso Nacional ou num Conselho de Anciãos, jamais como candidato à presidência da República nessa idade já provecta. Vi Plínio brincando de ser candidato e aproveitando-se da oportunidade para se divertir com os adversários.

Quanto à Marina Silva, não há brasileiro que ignore os méritos dessa senhora de caráter nobre e de ideais límpidos, com uma história de vida admirável, testemunha viva de como os pequeninos podem, com denodo e afinco, alcançar metas antes destinadas apenas aos privilegiados. Mas Marina Silva está muito mais para uma santa de altar do que para uma mulher pública realista; mais para uma ideóloga com propostas específicas e professorais, do que para gerenciar um país ou governá-lo como estadista. Pena Marina Silva deixar o ministério por uma aventura com fim já anunciado. Pena, também, deixar sua cadeira no Senado vazia, a tribuna sem sua voz de mártir por uma boa causa. Alguém está enganado, pois a presidência não é altar. Nem púlpito.

Em relação a José Serra e a Dilma Roussef, melhor seria, penso eu, que eles fizessem um acordo e deixassem as coisas ficar como já estão. Serra não tem mais nada a dizer, nenhuma proposta nova que amplie os largos rumos já alcançados pelo país e Dilma Roussef confirma ser a gerente de um processo e sucessora pragmática de um líder carismático. Nada houve de novo no front. E fiquei feliz por ter optado pelo jogo entre São Paulo e Internacional, um jogo emocionante, sensacional em suas transformações, despertador de entusiasmo e de vibração. A alma dos jogadores estava na ponta das chuteiras. Enquanto isso, a alma dos candidatos ficou voando no vazio, como se saindo do nada para ir a lugar nenhum.

Passei, pois, no meu teste de afastamento desse mundo político que, para mim, não tem mais jeito e nem conserto. Pelo andar da carruagem, Dilma vence essa parada num jogo sem entusiasmo, sem palpitações, sem desafios, sem paixões. E tudo continuará como está, com a vantagem de, por enquanto, o Brasil estar indo muito bem, obrigado. Bom dia.

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