Ser pai

PaiNa confusão geral de nossos tempos – onde e quando os referenciais estão quase que desaparecidos – a crise de identidade atinge e alcança não apenas as pessoas, mas, também, as instituições. A história humana é feita de rompimentos, em caminhadas nem sempre retilíneas, mas tortuosas e estafantes em seus tropeços. Hoje, não falamos mais em civilização apenas pós-moderna, mas, também, pós-burguesa. Há estilhaços por toda parte, com a aceitação de toda a forma de relativismos que parecem ter assassinado, em definitivo, qualquer ideia ou esperança no absoluto.

O que era complexo passou a ser entendido como simples. E o simples se fez complexo. A certeza de que o humano é um ser racional empalidece ou esconde a continuidade dessa compreensão, a de que, além de racional, o ser humano é reflexivo. Ocorreu que, sendo inteligente, o homem pensa e não mais reflete. Logo, suas conclusões e certezas são formadas por outras fontes que não ele mesmo. Passamos a ser o que pensam os meios de comunicação, o que pensam os bancos, o que impõem os sistemas econômicos e políticos, em nome de uma ideia capenga de aldeia global. Ora, a mundialização econômica não impôs uma unidade cultural, nem matou valores e princípios étnicos, muito menos a genética da alma humana, forjada na ancestralidade que, apesar das imensas transformações, fala pela voz quase sempre silenciosa da carne e do coração.

Compramos até mesmo a ideia de que não existem, na origem, homem e mulher, mas uma construção do feminino e do masculino. Com isso, conseguimos, senão explicar, pelo menos justificar a bagunça em que se transformou a vida em sociedade, em família e as relações humanas. Se a pessoa não nasce mas se torna homem ou mulher, essa é discussão interminável. No entanto, há uma outra dimensão humana que parece não mais colocada em dúvida: ser mãe e ser pai não significa apenas gerar, colocar filhos no mundo. Ser mãe, hoje, é uma das mais desafiadoras construções para a mulher, que ocupa outros papéis na sociedade humana. E mais difícil, ainda, é para o homem que, perdendo a identidade do masculino, quase nem sabe mais como fazer a sua construção pessoal de pai.

A humanidade passou, inicialmente, pelo matriarcado, com os povos primitivos adorando o feminino, a deusa. Depois, o patriarcado, quando o mundo se masculinizou e toda a força e todo o poder se concentraram no homem, o chamado “homem universal”. A partir dos anos 1970/80 – após a explosão mundial de rebeldias dos 1950/60 – começaram as indefinições, incertezas, dúvidas, relativismos, todo um edifício anterior destruído sem que nada de concreto, a não ser o imediatismo, fosse colocado em seu lugar. Foi o que se chamou “tragédia do homem, tragédia do mundo, tragédia de Deus”. Nem Nietschze conseguiu prever que, com tanta facilidade, Deus morreria na pós-modernidade. Na realidade, morto não está, mas, sim, desaparecido.

As relações mãe e filho são umbilicais, amor visceral. As de pai e filho são diferentes, pois, ancestralmente e ainda com resquícios vívidos, pai é a lei, pai é a ordem, pai é a palavra final, pai é a força, como se fosse um chefe, um patrão, um deus todo poderoso. Na verdade, pai é aquele contra o qual o filho haverá de se libertar para evitar sua própria castração. Se essa força vital não existir, o filho não terá do que se libertar, não terá contra o que se opor e, em especial, não conhecerá e não levará consigo a força da lei familiar. Mãe é amor, doçura. Pai é ordem, pai é lei, pai é experiência, o educador. Se for um ausente, se não souber dizer não, será apenas um conhecido do filho, sem ter sido um referencial. É o amargo desafio dos jovens pais de tempos também indefinidos.

Tudo começa a ruir quando pais querem ser amigos de seus filhos, no suicídio de substituir a paternidade pela amizade. Amigo é amigo; pai é pai. Saber ser pai é o desafio do homem nesta caminhada acelerada do terceiro milênio. Tudo, porém, ficará mais fácil quando se redescobrir a arte de ser pai. Bom dia.

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