A morte da mulher iraniana

IranianaConfesso não saber, até hoje, se há má fé ou completa ignorância do poder político e dos meios de comunicação em relação ao Oriente. E, em especial, ao mundo muçulmano. Na realidade, há que se admitir, também, haja má fé e ignorância do Oriente em relação ao Ocidente. Seja o que for, equívocos, desrespeitos, farsas e ódios se vão avolumando cada vez mais, especialmente nas últimas décadas quando a força do petróleo passou a falar mais alto do que qualquer ideal utópico de convivência fraterna ou simplesmente pacífica.

A história do Oriente é admirável. Tão admirável, aliás, que, ainda hoje, nos serve de guia até mesmo em nosso cotidiano. Orientar, orientação, é estar voltado ao Oriente. Desorientar-se é distanciar-se do Oriente. E, por outro lado, o significado de Ocidente, em contraposição, sempre foi “lugar das sombras, caminho da morte”, espaço e lugar onde o sol se põe e dá lugar às trevas. A humanidade começou na África e foi no Iraque que surgiu a grande civilização monoteísta, entre o Tigre e o Eufrates, na aldeia de Ur, onde Abrão, o pai da fé, nasceu. De Abrão, surgiram as três religiões monoteístas por isso mesmo ditas abraâmicas: Judaísmo, Cristianismo, Islamismo.

O Iran é a antiga Pérsia, berço histórico de memoráveis conquistas científicas, humanas, filosóficas da história humana. Sua riqueza espiritual é imensa e seria tolice tentar dissertar a respeito numa despretensiosa croniqueta do cotidiano. Todo o radicalismo atual do Iran – que se transformou numa teocracia – teve como primeiro culpado os próprios Estados Unidos que, quando impuseram o Xá da Pérsia, Rheza Pahlevi, tentaram ocidentalizar o Oriente. Culturas milenares não se transformam pela força. E a terceira lei de Newton, da lei e da reação, também funciona nas questões culturais, filosóficas, ideológicas: a uma ação, corresponde uma reação. Os aiatolás conseguiram conquistar a alma iraniana contra os desmandos do Xá, rejeitando a ocidentalização de sua cultura. E aquele que era um universo muçulmano se transformou numa sociedade islâmica.

Eis, pois, a grande diferença que o Ocidente finge ou não quer entender: o termo muçulmano refere-se a um fenômeno sociológico, enquanto islâmico faz referência específica à religião. Veja-se o Paquistão: é um país de maioria muçulmana sem ser, no entanto, um Estado islâmico. O islã tem o propósito de alcançar a amplitude globalizante se seus povos, não podendo, no entanto, ser confundido simplesmente com islamismo, especialmente o dos fundamentalistas.

As sociedades e nações muçulmanas foram ricas e poderosas no passado, empobrecendo, no entanto, por força de guerras, divisionismos, invasões, explorações. A ascensão do Ocidente corresponde à decadência do Oriente. Não há como deixar de reconhecer e admitir que esse universo complexo muçulmano, que ainda abriga tribos e divisões étnicas, tem graves problemas e abriga injustiças inomináveis. Mas isso também ocorre no Ocidente dito cristão.

A má fé ou ignorância do poder político e dos meios de comunicação transformaram o Iran – antes, era o Iraque – no demônio a ser vencido. Mas é a velha e histórica Pérsia, milenar, que sobrevive com suas contradições e cultura difícil de ser entendida pelo Ocidente. A questão, agora, da mulher iraniana que deverá ser morta, após julgada e condenada, por adultério e por assassínio do próprio marido, passa a ser tratada como decisão de bárbaros, quando, na verdade, nada mais é do que uma questão de justiça de uma cultura diferente da nossa. Para o muçulmano, o adultério é crime ao nível da violação sem perdão, enquanto, no Ocidente, o adultério se transformou em banalidade.

A pena de morte nos soa, no caso da mulher iraniana, como algo primitivo, mas fingimos esquecer que ela existe nos Estados Unidos que, aliás, seguiram as leis do Iraque, quando promoveram o enforcamento de Sadam Hussein. É óbvio que nos horroriza e repugna uma punição com essa força primitiva, milenar. Como nos repugna, também, enforcamentos, fuzilamentos, injeções letais, como instrumentos de pena de morte. Mas ficaria mais fácil entender se atentássemos para a sabedoria popular: “cada roda com seu fuso, cada povo com seu uso.” O não atirar a primeira pedra parece estar sendo uma questão de conveniência.

O islã é, hoje, a religião que mais cresce no mundo, numa expansão vertiginosa que já alcança o Ocidente. E é um crescimento difícil de ser entendido, já que o radicalismo das minorias fundamentalistas islâmicas causa repúdio. Ocorre, apenas, entre outras causas, que os muçulmanos são praticamente inacessíveis a qualquer forma de conversão a outra religião. E a outros costumes, a outras culturas. O fracasso das Cruzadas deveria servir-nos, ainda hoje, como lição para amainar essa gana, essa ânsia de evangelizar, de converter, de ocidentalizar, de democratizar, de levar nossa forma de vida a outras nações. Aliás, de levar o “american way life” a povos que são berços da humanidade. A ganância econômica cega e leva à ruína, quando esbarra na cultura e na ideologia enraigadas de povos milenares.

Antes de criarmos grandes escândalos porque a mulher iraniana será punida conforme a lei, a justiça e os costumes de seu país, seria mais honesto se cobrássemos, dos Estados Unidos, por exemplo, as crueldades que continuam se repetindo em Guantánamo, nas guerras no Iraque e no Afeganistão, especialmente agora que se revelam documentos dramáticos de crueldade, assassínios e destruição de inocentes, mulheres, jovens e crianças. Por ignorância ou má fé, com seu silêncio e má informação, a chamada grande imprensa pode cometer crimes de lesa humanidade. O Grande Satã está muito mais perto de nós do que imaginamos. Bom dia.

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