Desmemória

A rapidez das mudanças seja, talvez, o que mais nos complique a compreensão dos tempos. Elas acontecem depressa demais. Assim, quando mal começamos a nos acostumar com algo verdadeiramente novo, um outro aparece. E mais outro e mais outro. Tudo, então, envelhece também rapidamente: o que, ontem, era novo torna-se antigo agora.

O mundo é movimento. Logo, tudo o que está nele se move. E movimento é mudança. Que pode ser um ir e voltar, estar à frente, dar passos para trás. A tragédia humana parece acontecer com a sina de o homem carregar consigo toda a sua história, por mais que caminhe, por mais que mude. O passado nos acompanha para o bem e para o mal. Por isso, talvez, os antigos – em especial na Idade Média – viveram duas formas de vida de renúncia: “contemptu mundi”, o desprezo pelo mundo, e a “fuga mundi”, o refúgio.Fico pensando, cá com os meus botões, se morar em condomínios fechados,em chácaras,em lugares ermos não é uma repetição atual desse desprezo e dessa fuga dos antigos. Afinal de contas, nada há de novo sob o Sol.

O fato é que o mundo acaba para cada geração que o construiu à sua imagem e semelhança. E recomeça com outras. Por isso, não falam besteiras os que, assustados, vêem os acontecimentos, fatos novos, transições surpreendentes e desabafam: “é o fim do mundo.” Sim. Estão certos. É mesmo o fim de um mundo,como aconteceu conosco, os nostálgicos dos “anos dourados” que, na verdade, foram, também, de chumbo e de sangue. Pergunto-me ainda agora: a memória é um bem ou um mal para o homem? E a desmemoria?

Lembro-me de quando, nos 1950, apareci em casa com uma camisa vermelha, os cabelos já alongados. Meu pai se escandalizou, gritou e pediu providências para minha mãe: “Olha que escandaloso está seu filho. De camisa vermelha em minha casa?” E pior aconteceu quando minha irmã mais velha, já mocinha, surgiu de calças compridas. “Moça de calça comprida? Isso é um escândalo, é o fim do mundo!” Daí, o rock, Elvis Presley, Beatles, o ié-ié, Roberto Carlos foram desmoronando os altares de Silvio Caldas, da valsinha, de Francisco Alves. E meu pai viu o seu mundo acabar, morrer. A sorte dele foi ter acompanhado a nova jornada, a dos seus filhos. E, ao violino, ele chegou a tocar “Carolina”, de Chico Buarque.

E Brigitte Bardot? Ainda há poucos dias, assisti, na tevê, ao filme “E Deus criou a mulher”. Confesso que ainda o acho mais erótico e provocativo do que todos os filmes pornográficos, travestidos de erotismo, que estão por aí. A nudez da “La Bardot” – numa única cena, deitada de bruços, de perfil – foi uma explosão no mundo. Até o Vaticano tremeu em seus pudores. Os moços iriam rir-se se o vissem como filme erótico, dada, hoje, a inocência que transpira, o desejo insinuado, a sensualidade quase etérea.

Quando eu ia ao cinema com a namorada que se tornou mãe de meus filhos, era preciso alguém para acompanhá-la. A isso, chamava-se “fazer vela”. Pegar na mão, apenas depois de um mês de namoro; beijo, começando pelo rosto, após seis meses. E o resto… Bem, deixe pra lá que a hipocrisia era norma e regra invioláveis. Agora, um dos filhos me contou que meu neto, de 20 anos, não passaria a Páscoa com a família porque estaria uma semana com a namorada, a sós, numa pousada da praia. Aliás, ele já dorme na casa dela; ela, também na dele. Obviamente, com a concordância dos pais. Numa boa.

Parece-me, no entanto, haver um problema. E grave. Nesse mundo de minha geração – que está morrendo – havia com o que sonhar, pelo que lutar, transformações a fazer. Eram referenciais de uma geração. Sabia-se, por exemplo, quem eram os bandidos e os mocinhos, deuses e demônios, sólido e gasoso. Com todos os preconceitos, dificuldades, carências, tecnologias ainda rudimentares, havia noções claras de bem e mal, bom e mau, belo e feio. Agora, tudo se misturou. E o resultado está amargo.

A memória, decido-me, é um bem. Mas desmemoriar-se de coisas tolas, sem sentido, ultrapassadas por terem sido equivocadas – essa desmemoria é um bem. E é necessária para tentar compreender esse novo mundo que surge no lugar do que está morrendo. Minha geração tem o dever de apontar referenciais. Pelo menos, tentar.

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