Felicidade de mercado

picture (51)É possível alguém ser feliz apenas como consumidor? Bancos, cartões de crédito dizem que sim. E há, também, empresas de pesquisas de mercado e de estatísticas que chegam a criar mapas da felicidade em relação a cidades e a consumidores. Como se pesquisa felicidade? E o que é? Há algum tempo – e não sei se isso continua – houve uma pesquisa desse tipo em Piracicaba e o resultado dava a impressão de termos, enfim, encontrado o paraíso perdido, o Shangrilá: apenas 1% (um por cento) da população se dizia muito infeliz. O céu é pior do que aqui.

São questões mercadológicas como tais verdades conclusivas que aumentam a preocupação, a angústia diante de simplificações de conceitos, da banalização de valores, da perda de noções, de sentido, da capacidade de refletir e de avaliar. Uma visão apenas utilitária da economia mundial permite confundir pessoas com objetos, sugerindo humanos e bichinhos estejam no mesmo nível de dignidade, arrasando paradigmas e alicerces. Se a capacidade de consumo define o cidadão e qualifica o ser humano, a conta bancária, conseqüentemente, revelará o índice de felicidade.

Mais alarmante é ver questões milenares e ontológicas discutidas em programas de auditório, sendo resolvidas por consultas de opinião pública, por telefone ou por correio eletrônico. Trocaram-se cérebros fecundos por corpos sensuais, cientistas por jograis; dispensaram-se a cátedra e catedráticos, anularam-se a filosofia e filósofos, a história e historiadores – entronizando a sabedoria e o conhecimento de celebridades do mundo do entretenimento. É melancólico ver o panorama: quando, cada vez menos, sábios sabem pouca coisa, cada vez mais há espertalhões fingindo saber tudo.

Se mensurar-se a felicidade de uma população a partir de critérios do mercado, será preciso, então, reconhecer a falência da civilização ocidental e dos ideais democráticos. Desde os romanos, sabe-se como cercear vôos maiores do sonho humano: com pão, circo, sossego, segurança. Houve a “pax romana”, como existiram a soviética, a germânica e como é, agora, a estadunidense. A felicidade almeja a paz. . No entanto, há a paz conquistada pela luta, pela busca e há a paz dos cemitérios, dos calabouços.

O sonho do poder é idiotizar o povo, seqüestrando-lhe o espírito. Assim como há a lobotomia do cérebro, lobotomizam-se almas e consciências. O homem feliz, por isso, pode ser alguém próximo da plenitude de valores – ou um simples tolo. Felicidade é uma das mais agudas interrogações humanas. Seriam prazeres, desejos, satisfações deles? Na carne, no espírito, aqui, além? Mesmo sem respostas, a felicidade continua a ser o grande anseio do ser humano. Em milênios de busca, ficaram aprendizados e uma certeza: como se fosse um destino, o homem apenas será e estará feliz “com”.

Ora, Piracicaba é uma cidade nascida toda cheia de graça. Terra de belezas, de generosidades, com condições especialíssimas para existências privilegiadas, foi-nos lugar como que prometido para viver. Mas “viver com”. Com a família, com amigos, com conterrâneos, no pluralismo de interesses e no conflito deles. Portanto, somos um povo e uma cidade na história. Isso significa construção. Permanente, incansável, diuturna.

Se – num tempo e num lugar – apenas se é “feliz com”, soa egoístico falar-se em mapa de felicidade quando a comunidade vive COM injustiças, misérias, desemprego, crianças abandonadas, prostituição crescente, violência, insegurança, intranqüilidade, demagogia, administração de rotatórias. Quem pode ser feliz convivendo com tantas carências? Bom dia.

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