Festa do silêncio

picture (49)Sinto termos escolhido caminhos equivocados. Quando surgiu a encruzilhada, decidimos pela estrada errada. São-me, porém, apenas, sensações, como se passarinhos me sussurrassem aos ouvidos: “voltem, o caminho não é esse.” Mas quem ouve passarinhos?

Essa estrada, percorremo-la já há bom tempo. É um irmo-nos às cegas, aos trambolhões. Há uns 30 anos, empre me lembro disso, meu pai, já idoso, comentou: “Filho, você percebeu que as pessoas deixaram de assobiar quando andam pelas ruas?” Não percebera mas passei a notar: cabisbaixas, apressadas, olhares duros, rostos fechados, sobrolhos enrugados – elas não assobiavam. Até a palavra sobrolhos desapareceu.

Moços, sob a janela das namoradas, assobiávamos a canção do amor de de cada casal. Pois os que se amavam tinham a música de seu amor. Tive amor com “Violetas Imperiais”, tentei outro com “Fascinação”, não deu certo. Para o mais doloroso deles, elegi “As time goes by”. Foi tão impossível que – amargo como Humphey Bogart, no “Rick’s Café” de Casablanca – vesti smoking e pedi, entornando o uísque: “Play it, Sam!” Não houve Sam algum para tocar “As time goes by” ao piano, nem existiu “Rick´s Café”, deixei Ingrid Bergman ir-se.

Resolvi, então, nunca mais escolher apenas uma canção especial: as mais belas melodias do mundo, todas elas, fariam parte de amor e de amores. Até o apito da Maria Fumaça. E o gemido em “sotto voce”de uma estrela cadente. Em silêncio, pode-se ouvir: estrelas, quando caem, caem soluçando à meia voz.

Mas havia música nas ruas: moços assobiavam canções ao passar nas calçadas de seus amores; velhos murmurejavam melodias de sua saudade. Pais e mães sussurravam “berceuses” para ninar os filhos. Nos quarteirões, sem estridências nervosas, apitos da guarda-noturna trilavam como sons de gaiteiros, delicadeza de quem faz a ronda. E o homem do realejo convidava a encontrar-se a sorte e o sorveteiro anunciava o sabor dos sorvetes.

Mas surgiu a encruzilhada. Levados a escolher, optamos, penso eu, pelo caminho errado. E ficamos. Dirão, os moderninhos, ser, isso, coisa de saudosista. É. Os profetas, que antevêem o futuro, olham-no a partir do passado. Mas sabem: futuro é hipótese. O tempo presente é caminhada, processo, a experiência. Sábio será quem entender que o presente do mundo foi escrito pelo que aconteceu, nosso referencial. Aprisionar-se ao passado é um erro. Mas repudiá-lo é suicídio. Presentificar o passado, traduzi-lo no presente de filhos e netos, essa é missão de pais e avós.

Ora, já existem “pais terceirizados”. Pais biológicos – diante de seus tantos afazeres, lufa-lufas, ambições – contratam homens e mulheres para cuidar de seus filhos, ajudando-os nas lições de escola, orientando-os nas dificuldades, ouvindo-os quando têm coisas a dizer, a perguntar. Em fins-de-semana, a família biológica reúne-se. E vai passear no shopping.

Há poucos anos, no entanto, da Europa, chegaram-nos outros sinais. São as “festas do silêncio”. Em certos bares e restaurantes, pessoas pagam para ficar em silêncio, apenas em silêncio, com música suave ao fundo. É proibido até falar. Sem falar e sem ouvir, nada mais resta senão pensar. E, então, refletir. Talvez – ouvindo o coração – descubra-se que nossa estrada liga o nada a lugar nenhum. Quem arriscar outro caminho, voltará a assobiar. Continuarei insistindo nisso. Bom dia.

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