Genética da alma

AlmaPode ser coisa de escrevinhador, não importa. Algum dia, as pessoas haverão de acreditar de como é impossível viver sem inventar. E inventar apenas na imaginação, sem necessidade alguma de resultados ou de obras concretas. Depois que se inventou a roda, o resto foi conseqüência. Mas quê lá sei eu?

É como a paixão. Quando não se tem nenhuma, há que se inventar alguma. Há quem discorde. Aliás, desde que o homem começou a filosofar, a paixão nunca mais deixou de ser discutida, para o bem ou para o mal. Azar de quem não a tem. E azar de quem a tem. O problema é que, sem paixão, a vida fica de uma chatice insuportável. Mas, com ela, vive-se em turbilhão. Então, como e o quê fazer? Nada.

A própria vida é uma paixão. Portanto, o homem há que se apaixonar. Se não for por alguém, terá que ser por algo. Quantos andam, por aí, enlouquecidos por paixões políticas, religiosas, ideológicas? O apaixonado parece bobo, enlouquece. E, conforme a paixão, se torna perigo universal. Lembram-se do Bush? Ele não falava ter paixão por festa de São João, que seu ídolo era Nero, que se lhe tornara compulsão incontrolável ficar atirando bombas de lá para cá. É paixão. Por bombas ou por sangue. E, então, eis lá ele, o Vampiro, o Drácula, querendo beber sangue a qualquer preço, seja de velhos, seja de criancinha.

É complicado. Mas existe , dentro de cada um, como que uma abelha picando devagarinho. Pica e faz reagir. Venho, porém, insistindo em algo que, de princípio, me convence: o de ser, a alma humana, um único mistério, alma universal. Tão infinita que, ao longo dos séculos, cada bebê que nasce apanha um pedacinho, engolindo-o como hóstia, levando-o dentro do corpo. Quando a alma cresce mais do que a carne, surgem os poetas, os artistas. Quando murcha, aparecem bandidos, pois eles são os que esmagam a própria alma. O resto da humanidade vive com sua alma da maneira como pode. Alguns, sem sequer perceber que a têm, além do corpo.

Eu quase me convencera disso quando comecei a mudar de idéia. Ou melhor: juntei a primeira, da alma única e universal, com outra: a de que o pedacinho de alma de um acaba se misturando ao de outro e, com o tempo, o homem passa a ter mil, milhões de pedacinhos de alma. Até para mim, que ando tentando inventar coisas, é meio atrapalhado o que me fica passeando pela imaginação. Mas explico o porquê.

Outro dia, assistindo a um documentário sobre a Andaluzia percebi que conhecia quase todas aquelas belezas sem nunca ter estado lá. Acontece-me, também, quando vejo coisas de Istambul, de Atenas, de Damasco, cedros do Líbano. Meus pais nos contavam ter havido uma mistura de sangue e almas turca, grega, síria, libanesa para formar a nossa. E, portanto, o império otomano está, até agora, dentro de mim. Como a própria antiguidade grega e os fenícios que antecederam sírios e libaneses. São milhões de almas, ao longo do século, que se juntaram ao pedacinho que peguei quando nasci.

Na verdade, o que estou querendo dizer é que a maior das idiotices são essas lutas e guerras entre povos, guerras fratricidas, pois, no final das contas, somos todos parentes. É uma luta de irmãos contra irmãos. Mais do que suicídio coletivo, cometemos um imenso e odioso fratricídio. Se isso não for invenção, que passe a ser entendido assim. Bom dia.

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