Independência sem povo

IndependênciaPara ser franco, tenho lembranças belíssimas de minha infância no pós-guerra, tão logo ingressei no então curso primário. Eram tempos em que já se findara a ditadura de Getúlio Vargas que, no entanto, guardavam marcas fortíssimas da presença dele na vida brasileira. Quando Fernando Henrique, num ataque de fúria de mercado, disse que iria dar fim ao Estado Getulista, ele, como sociólogo, sabia o que estava fazendo: na verdade, queria dar fim a valores, a conquistas, a sentimentos que, mesmo numa ditadura, Getúlio havia implantado no País, o verdadeiro construtor do Estado brasileiro.

Ficaram-me, ainda hoje, marcas de valores cívicos que me forjaram um entranhado amor à Pátria, à minha cidade, a meu povo. Não me esqueço de um dia, na minha infância, acho que lá pelos meus seis anos, saindo de um pastelaria na esquina de casa, ouvi, vindo da praça, os primeiros acordes do Hino Nacional. Automaticamente, num verdadeiro reflexo condicionado pavloviano, parei na calçada, fiquei imóvel, levei a mãozinha ao peito, ao lado do coração. Era o hino de minha pátria, o hino de minha nação e, com ele, eu comungava com meu povo, com minha gente, com meu lar.

Na escola, a professorinha, a cada semana, colocava uma bandeira nacional ao lado da carteira do aluno que melhor aproveitamento tivesse. Quando a bandeira ficava ao meu lado, o orgulho cívico que eu sentia me fazia estremecer de emoção. E, nos desfiles das festas cívicas, carregar a bandeira brasileira, desfilando com ela à frente do batalhão de estudantes em marcha, era o prêmio máximo. Isso me marcou tanto que, até em jogo de futebol, quando ouço o Hino Nacional me comovo e me emociono. E me lembro de Charles de Gaulle que, segundo a lenda, ao ouvir a “Marselhesa”, segurava a mão da mulher Yvone e lhe dizia baixinho: “É a nossa música, querida.”

Em plena ditadura, eu ainda lecionava em universidade. E, certo dia, numa solenidade, ao se tocar o Hino Nacional, vi um jovem barbudinho que esticou as pernas sobre a poltrona à sua frente, esticou-se, zombeteiro e idiotizado, uma geração já pós hippie. Não me contive e, encerrado o hino, fui até o moço, meu aluno e lhe passei a descompostura: “Se você não respeita o Hino Nacional de sua Pátria, você não respeitará também seus pais, seus professores, seus conterrâneos.” Ele, assustado, quis justificar-se: “Estou protestando contra a ditadura.” Respondi: “Então lute contra ela, em vez de ficar fumando maconha, confundindo alienação com protesto.”

O Brasil, desgraçadamente, fez algumas das suas principais conquistas cívicas sem a participação do povo, massa então analfabeta, miserável, esquecida. Foi assim com a proclamação da Independência, com D.Pedro I – retornando de São Paulo onde vivera alguns dias de seu romance com a Marquesa de Santos – estava no lombo de mula, sofrendo ainda de uma diarréia, e recebeu cartas de emissários, entre eles José Bonifácio, dizendo dos perigos da intervenção de Portugal. Jovenzinho, Pedro Primeiro decidiu pela independência, opção pessoal, sem participação sequer de sua troupe de vassalos às margens do Ipiranga. E, na proclamação da República, o mesmo aconteceu: por interesses econômicos, depôs-se o monarca cuja filha libertara os escravos, criando crise de mão de obra entre os poderosos senhores de terra e cafeicultores. O povo não participou e a República, na verdade, não passou de uma quartelada.

O Brasil não consegue festejar a Independência e mal sabe o que seja República. A morte da consciência cívica estimulada, insuflada, inoculada por Getúlio Vargas na alma brasileira deixa-nos, ainda agora, conseqüências trágicas. Fernando Henrique conseguiu conduzir o Brasil à república do mercado. Lula não se afastou muito disso, ainda que tenha dado e continue dando a seu governo um forte cunho social, mas personalista. A alma cívica do brasileiro está desfalecida, tendo soluços apenas em alguns momentos históricos: a construção de Brasília, o impeachment de Collor, a luta pela lei do ficha limpa, a comoção da vitória de Lula, mas, também, a reação popular contra o governo de João Goulart, liderada por essa mesma imprensa que ainda teima em golpes e na manutenção de privilégios de alguns poucos.

Tenho inveja quando vejo a França, com orgulho e envaidecimento luminoso, comemorar o 14 de Julho, a grande revolução iniciada com a queda da Bastilha. E inveja também de ver os Estados Unidos explodindo de júbilo em cada 4 de Julho, dia de sua independência, do início de um novo país, de um povo que lutou, sofreu, guerreou e morreu por sua liberdade e pela construção de uma nação.

Dia 7 de Setembro, vejo-o como um dia triste, de milhões de alienados indo-se embora para as praias e montanhas, sem sequer saber a razão do feriado. Se famílias e escolas não tiverem a coragem de começar da estaca zero na consciência cívica de filhos e alunos, dificilmente chegaremos a lugar algum. O centenário do Corinthians foi uma explosão de júbilo que o povo brasileiro não sabe ter em relação à sua pátria. Que pena. E bom dia.

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