Inventando presentes

picture (16)Foi há alguns anos, já o contei. Tudo começou num solitário banco de pedra em meu jardim. Dele, vejo um céu que tem limites: espaço que enquadro com os olhos. É um céu cujos horizontes estão à medida de meu olhar prisioneiro de árvores, de plantas e de solidão. Não há imensidões. E, por isso, estrelas e luares se me tornam próximos como se possível fosse tocá-los com as mãos. Chego a tentar fazê-lo, temeroso de que se cumpra o que diziam as velhas sábias e loucas: “Apontar o dedo pras estrelas faz nascer verrugas.” E me envergonho de não tê-las, as verrugas, nas mãos. Pois, se não as tenho é porque não conto estrelas.

E também não mais as ouço. Às vezes, acontece. Mas vejo-as. Sei que, à direita do banco de onde as olho, há duas estrelas que me parecem tolas, de tão quietas, imutáveis. Mas, à esquerda, cinco delas parecem sentir frio, de tão trêmulas. E, por entre os galhos do flamboyant, consigo ver a estrela que me provoca, toda assanhada, que me pisca sem cessar. Já pensei, certa vez, em tentar seduzi-la. Mas ela fica ao lado, bem ao ladinho, da estrelinha azul. E esta é minha filha.

Aconteceu que, numa noite acho que de muita dor – de dores de amores, quando eu ainda os tinha, dores e amores – o raio-de-luar entrou pela fresta da veneziana do quarto, e convidou-me a ir-me. Era uma dor tão intensa que não resisti. Escancarei a janela, montei no raio-de-luar, andei pelos céus, fugi de anjos e deixei-me levar até a Lua. Ela era ainda nova, mas já mocinha, na febre de seu quarto crescente. A lua, ansiosa, era um leito onde se deitar. Ela, na verdade, era uma lua de mel. E me acolheu e nos amamos. Fecundei-a e, oito dias depois, nasceu-nos a nossa filha, a estrelinha azul. (Penso nisso, em toda Lua Cheia, como a deste Natal.)

Foi o que aconteceu. E, ainda até poucos anos, bastava-me abrir a janela do quarto, ficar sentado no jardim, erguer os olhos e ver minha filha, colorida de uma fímbria de céu decorado com lápis-lazúli. Quando deixei de vê-la, desisti de procurá-la, como se os olhos se me tivessem fechado para ver e ouvir estrelas. Pois estrelas se ouvem também com os olhos. Cansado de sofrer com o sumiço da estrelinha azul, passei a fazer-me outra indagação: “Cadê eu,o que é de mim, que não mais encontro minha filhinha de céus estrelados?”

Pensei, neste Natal, em rogar me tirasse, as escamas dos olhos para, então, voltar a ver. E a enxergar. Mas uma pessoa encantadora – que, pelos mistérios da vida, me encontrou na encruzilhada de um tempo – contou-me de como estimula e promove relações natalinas entre familiares, amigos, vizinhos. É simples: de crianças a adultos, cada qual dá algo de si, de sua criação, de seu tempo, para oferecer a um outro. Um desenho no papel, um brinquedo de barro, um artesanato, uma carta, uma flor colhida no jardim, um soneto, um bolo. Comovi-me, lembrando-me de meu pai, fazendo, com as próprias mãos, nossos brinquedos de madeira. Natal sempre me pareceu esse doar-se, isso em que também acredita aquela mulher sábia.

Lembrei-me, então, de um dos mais belos cartões que recebi, em anos anteriores. A mensagem dizia que alguém saiu “a pescar estrelas nessa noite de lua vazia” e, serenamente, tocou num feixe de astros, juntando rubis e diamantes e opalas. Com um cesto de poeira luminosa de estrelas, colheu rosas, dálias e margaridas. E, num cartão feito com flocos de nuvens brancas, escreveu o nome para quem desejou fossem enviadas. Amigos e pessoas queridas minhas, se encontrarem esse cesto poeira de estrelas, aceitem-no como presente meu. E bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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