Sinais significativos e alentadores

Ora, não me considero supersticioso. Passo debaixo de escada, uso roupa de qualquer cor no revéillon, não tenho medo de espelho quebrado. No entanto, as bruxas, que “las hay, las hay”. As coisas acontecem quando têm que acontecer. E, se não têm que acontecer, não acontecem. A vida emite sinais. Os tempos, também. E eles são óbvios.

Há, não tenho dúvida disso, as tais coincidências significativas de Jung, a sincronicidade. Logo, se algo deu errado na primeira vez, não se preocupe ainda. Se, na segunda, também não funcionou, acautele-se. Se falhou na terceira, pare e vá descansar. O tempo se encarregará de colocar as coisas em ordem. Incluindo a vida. Parece ser questão de ritmo. Acelerar ou desacelerar é desordem. Se o coração bate em ritmo binário, a vida, penso eu, deve fluir ao ritmo dele. A razão de pouco vale se contrariar o coração. Se a razão ordena e o coração discorda, melhor será ouvir o coração. Pois, se de errado, dói menos. Dor de verdade é não ouvir o coração.

Penso nessas coisas por emocionar-me com sentimentos natalinos até mesmo depois de o Natal passar. Ou especialmente depois, tantos os sinais significativos, tantas as emoções bonitas, saudade agridoce. . Quando vou alinhar as idéias, algo acontece. E posso invocar até uma santinha que D. Aníger me deu – linda de dar gosto, toda formosa – por testemunha. Aliás, D. Aníger Melilo me deu coisas que se me tornaram tesouros preciosos: a santinha linda, um São José com o Menino Jesus, o capacete do pai dele como revolucionário de 1932, uma foto de sua sagração como bispo. D. Aníger é, na minha vida, daquelas perdas irreparáveis. Quando ele se foi, fiquei manco na fé, tive fraturas graves na espiritualidade. Ainda não sarei.

Os leitores das novas gerações desconhecem que D. Aníger, segundo bispo de Piracicaba, se tornou filho de padre. Foi algo inédito e emocionante. O pai dele, o advogado Vicente Melilo, era grande jurista de sua época, intelectual dos mais respeitados. Ao enviuvar e passado dos 80 anos, quis tornar-se padre. E foi ordenado pelo próprio filho, o bispo Aníger Melilo. Sei lá eu, que pouco entendo dessas coisas, mas havia sinais claros de beatitude naquela gente.

A santinha – presente de D.Aníger – pode, pois, testemunhar minha tentativa de escrever sobre Papai Noel. Eu sequer sabia de que Nossa Senhora era aquela imagem. Muito antiga, as cores estavam desbotadas. Quando a ganhei, ela tinha uma coroa, um grande manto de um azul esmaecido, salpicado de estrelas, um anjo risonho aos pés, as mãos postas junto ao peito e um rosário. Acho que por minha culpa – falta de fé, descaso, sei lá – a santinha foi-se desfigurando. Perdeu cores. Que Nossa Senhora era aquela? Certo dia, uma piedosa mulher levou a imagem para ser restaurada num convento de freiras. E a santa voltou fulgurante, num esplendor comovente. Revelou-se: ela era negra. Eu tinha a Senhora de Aparecida e não sabia.

Agora, com São José, a santinha está num lugar especial em minha casa, ao lado da fotografia de meus pais e dos avós, como que num santuário. Não consigo deixar de vê-la. Ela me provoca com seu silêncio pacífico. Que me incomoda, que me instiga. E, para aumentar-me a aflição, quando deixo minha casa para ir ao centro da cidade, passo, obrigatoriamente, por uma rua que me emociona. O nome dela é Rua Aniger Francisco Maria Melilo. Com a santinha e com a rua, é-me impossível não ouvir essas vozes misteriosas, sentir sinais da vida. Como as sereias de Ulisses, podem enlouquecer.

Foi um Natal com tantas delicadezas e com tão perceptível presença do divino que continuo sem saber como escrever. Bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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