Lembranças de Hilda, a “santa pornográfica”.

picture (62)Com certeza, jamais esquecerei. Hilda Hilst, eu a vi, pela primeira vez, há cerca de quinze anos, ao entrevistá-la em seu sitio, a “Casa do Sol”. A escritora passava por momentos ainda mais confusos de uma vida feita de polêmicas e rebeldias: ela resolvera enveredar pela escrita pornográfica. E enveredou. Nela, então, confundiram-se a mulher refinada – filha da aristocracia paulista, dama dos salões – e a autora de textos vulgares.

Quando Hilda me recebeu, fiquei paralisado, como que perdido num pesadelo surreal. Pois tudo era surreal: a casa, os ambientes, amigos, a própria Hilda era surreal. Quem se esquece de um jorro de raio de sol invadindo-lhe os olhos? Idosa, cambaleante, Hilda Hilst emitia jorros de luz. Aquela mulher – que tentaram transformar na Hilda pornográfica e pornofônica, imoral e desbocada – era uma das mais ternas e doces figuras humanas com quem eu já estivera.

Esperando ser atendido com um palavrão, vi Hilda sorrir e dizer-me: “Entre, meu querido e seja bem-vindo à minha casa.” Às suas costas, na parede, havia um grande retrato a óleo: era ela, Hilda, quando jovem. E entendi o enlouquecimento que tantos homens conheceram ao amar, na juventude, tão bela e sensual mulher. Hilda foi linda demais. Por dentro e por fora.

Gravei a imagem daquela Hilda – então, próxima dos seus 65 anos – que me sorria: saída do banho, estavam-lhe molhados rosto e cabelos, a pele úmida e um perfume agridoce envolvendo-a, envolvendo-nos. Descobri depois: não era perfume. Era cheiro de Hilda, essência dela mesma, de seu corpo, cheiro de mulher recusando-se a envelhecer. A Hilda desvairada, a Hilda contestadora, as tantas Hildas das capas de jornais, dos saraus literários, dos escândalos e dos enfrentamentos – as tantas Hildas desapareciam na doçura de senhora afável, refinada, elegante em cada gesto e em cada palavra.

Como rainha, Hilda deu-me o braço para que eu o tomasse, ajudando-a a caminhar, apoiada na bengala. Braços enganchados, andamos, lentos, pela varanda da casa secular, enquanto as dezenas de vira-latas dela latiam, fazendo-lhe festas. Um homem de feições enlouquecidas sorria para nós. Era o amante de Hilda naqueles dias, um grande poeta de sua geração que também enlouquecera. Hilda colecionava amores. E teve apenas um.

– Eu sou Myrra, a filha do Rei Cyniras, a que amou o próprio pai e quis ter um filho dele. – falou-me Hilda.

Nas “Metamorfoses”, de Ovídio, a trágica Myrra embriaga Cyniras, o pai, dorme com ele, engravida-se dele. Do amor incestuoso, nasceu Adônis, o belo, o filho do incesto. Hilda lamentava-se: “Não dormi com meu pai, não gerei meu Adônis.” Ela era a louca Hilda, como louco fora o pai, Apolônio, morrendo num hospício. A louca Hilda, da loucura santa dos místicos, dos poetas, dos íntimos dos deuses. Tida como imoral, ela deleitava-se lendo Santa Tereza d´Ávila, acariciando um terço de madeira preso ao pulso. “O amor é duro, inflexível como o inferno.” – falou, citando Santa Tereza.

À entrevista, dei o título de “A Santa Pornográfica”. Pois Hilda tinha esse olor de santidade dos místicos, a aura da iluminação dos que vivem a eterna paixão. Nas outras vezes em que voltei a estar com Hilda – já na condição de amigo e de seu convidado na “Casa do Sol” – o encantamento não se desfez.

Quando me avisaram da morte de Hilda Hilst, há alguns anos, não acreditei. Pois, quando a conheci, Hilda já estava morta. Como os místicos, a minha inesquecível “santa pornográfica” apenas deixara o corpo. E, depois dela, o mundo ficou mais sombrio. Bom dia.

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