Mais vereadores, crianças sem comida

Foi alarmante – mas reveladora das prioridades de um tempo e da política – a decisão da Prefeitura de São Paulo de reduzir a merenda das crianças das creches municipais. A partir de segunda-feira, as crianças em tempo integral – que recebiam cinco refeições diárias – passarão a receber quatro, com a recomendação de que se cancele o café da manhã ou o jantar, à escolha das diretoras de creches.

A primeira alegação é a de que a Prefeitura irá reduzir o período letivo de 12 para 10 horas, o que não explica nada. O que explica, porém, é que haverá uma redução de 600 mil reais nas despesas alimentares com as crianças, a maioria delas carentes. E é o baixo nível sócio-econômico dos pequenos alunos que preocupa diretoras e nutricionistas. Um desabafo: “As crianças que atendemos são carentes e a maioria só come aqui. Como vou cortar o café da manhã se ela não tomou em casa? E como vou deixar de servir o jantar se elas dificilmente se alimentam adequadamente à noite?” A diretora se referia a pequeninos de 0 a 3 anos.

Enquanto isso, há, cada vez mais furioso, o movimento de uma associação de suplentes de vereadores pressionando o Congresso Nacional – com aprovação já pela Câmara Federal – para que se aumentem o número de vereadores nos municípios, o que implica aumento de despesas, de mordomias, de privilégios, de vantagens. Como há, também, a pressão para aumento de vencimentos na Magistratura Federal, o que produzirá efeito cascata em todos os demais poderes da República. Isso, para não estarmos monotonamente nos lembrando de escândalos do Congresso e verdadeiros assaltos aos cofres públicos, como agora se revela também com um funcionário contratado pelo Senador Marco Maciel, que recebeu salários durante quatro anos, muito embora estivesse preso. Em tempo: Marco Maciel também afirmou que nada sabia.

Ora, não há mais duvidar do passo gigantesco que o Brasil deu para se transformar, não mais em futuro longínquo mas em curto prazo, numa séria e respeitável potência mundial. A locomotiva finalmente reencontrou os trilhos. No entanto, a ordem política, as práticas partidárias, a mentalidade medíocre do homem público brasileiro quase sem exceção, permitem que nos coloquemos entre os países mais injustos do planeta. A economia de 600 mil reais mensais que a Prefeitura de São Paulo fará cortando uma refeição de criancinhas carentes voltará, feito uma maldição, contra os seus idealizadores, como são maldições que começam a cair sobre a classe política brasileira, insensível ao sofrimento do povo, incompetente para avaliar a dimensão da injustiça que clama aos céus e faz até as pedras das ruas gritarem.

Enquanto o Brasil, a partir de seus municípios, não mergulhar fundo nas investigações e análises de terceirizações de serviços e de privatizações, estaremos sendo cúmplices de crimes contra a infância e contra o futuro do país. Das mesas fartas de empreiteiros e banqueiros, não sobram sequer migalhas caídas ao chão para que os pequeninos lambam, fingindo ser alimentos. A elite brasileira acostumou-se, quase como esporte nacional preferido, a esculhambar o presidente Lula por suas atenções aos mais pobres, por bolsa-família, por o que chamam de assistencialismo populista. Mas essa elite não percebe que, por saber da fome do povo, Lula é amado e quase venerado, movido pela intuição que falta a falsos líderes egoístas e indiferentes. Bom dia.

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